Quarta-feira, Dezembro 31, 2008
Revista do ano
Para ouvir hoje, 31, às 15h00. Com reposição na Quinta, dia 1, às 10h00; e Domingo, dia 4, 10h00. Com selecção de arquivo e edição de Rui Isidro e desenho sonoro de António Ribeiro.
Órgão de tubos
Pronto, foi dado um primeiro passo. Grenzing gostou da acústica da Sé e revelou que o órgão há-de ser "contemporâneo", apesar do musicólogo egitaniense Geada Pinto lhe ter mostrado fotografias do anterior. O assunto parece bem encaminhado, apesar das demoras (parece ser uma das características da Diocese e da Cidade). Acreditemos, pois tendo em conta os anos que já passaram... só nos resta ter fé.
PS- O jornal "A Guarda" parece ter mesmo um problema com a escolha das fotografias. Desta vez, para ilustrar o artigo sobre o órgão, publica uma foto onde o pároco da Sé parece estar aos saltos com uma pistola na mão.Mas não, o padre rejubila de alegria com um telemóvel na mão.
Terça-feira, Dezembro 30, 2008
Anúncio da Plie
O anúncio é, na minha opinião, pouco entusiasmante do ponto de vista da substância e do grafismo. Trata-se de um pequeno anúncio com muito texto (que eu nem sequer consigo ler sem esforço, pois usa um tipo de letra miniatural) e com um desenho gráfico pouco criativo/apelativo (usa um mapa de Portugal para mostrar onde fica a Guarda). O estilo é "dejá vu" por ser muito usado por gráficos... que se repetem. Merecia melhor investimento na mensagem e no grafismo, este anúncio da Plie, mas como é o primeiro pode ser que se possa ainda emendar a mão. De qualquer forma é já alguma coisa...
A terminar
Está também a terminar a exposição colectiva dedicada ao "Ar da Guarda" no Paço da Cultura. A maior qualidade desta exposição é a diversidade das propostas, ou seja, a sua "desigualdade". Há lá trabalhos que não mereciam ser expostos (uma coisa é fazer um pintura para cima da lareira lá de casa e outra é expô-la num lugar público), outros que surpreendem pela novidade que representam, outros que se impõem pela coerência interna ou conceptual (mesmo que eu não goste da obra final) e, finalmente, outros muito interessantes. Dentro dos últimos destaco as esculturas de Maria Lino, João Cruz Reis e Rui Miragaia. Elas representam atitudes diferentes: a da escultora com forte consciência do seu trabalho, a do artista popular e a do artesão, respectivamente. Interassa-me a consistência do trabalho de Maria Lino, a sabedoria popular no "trabalhar a pedra" no caso de Cruz Reis e o jeito/criatividade/ habilidade de Miragaia. As peças não deveriam ter sido expostas na mesma sala pois cada uma interfere na "leitura" das outras (ainda por cima a de Miragaia tem um lâmpada a funcionar intermitentemente, que produz efeitos de luz e sombra sobre as outras peças). Cada escultura merecia uma sala só para si.
Uma boa proposta, a continuar através de outras desafios aos artistas locais.
Balanxo 2008. Agostinho da Silva
2008, antes de mais um ano antes do ano eleitoral!!
balanço... balanço... em 2009 caio!!
2008; 2007;2006;2005... é tempo de mais!!!
2008, foi o ano em que percebi, com todas as letras que estava a mais na vida deste concelho, também na vida do Jarmelo.
2008, foi o último ano (depois de ameaçar tantas vezes) que participei na organização da feira do Jarmelo (depois de cerca de dez anos nisto!!)
2008, ano em que fui monárquico por uns dias, na Feira de S. João.
2008, ano da apresentação pública (e notória) do KIT para o JARMELO
2008, mais 119999, estive em Lisboa no dia 8 Novembro
2008, ano quixoteano.
2008, ano em que a CMG, ameaçou deixar 90% do Jarmelo com água, saneamento e calçadas nas ruas.
2008, ano em que (alguém) definiu o futuro político do Jarmelo (S. Pedro), obrigando pessoas a sacrificarem a sua vida pessoal, para abraçarem aquele posto avançado, como se de um sacerdócio se tratasse (como ficam bem esses sentimentos a algumas pessoas - pena que nunca vão ler este texto, GRAÇAS, que haverá um assessor de imprensa - "opinionmaker"- que fará chegar a mensagem devidamente envenenada!!! heheheh
2008, heheheheheh deixem-me RIR!!!!!!
Agostinho da Silva
Solar do queijo que não há
Julgo que a Câmara deveria repensar o "projecto" deste equipamento
Vinhos
Ainda não sei verbalizar o que senti ao degustar alguns preciosos néctares. Um dia destes. Por agora, registo o interesse pelos:
- Fraga da Galhofa, tinto (Poço do Canto-Mêda)
- D. Graça, tinto (idem)
- Quinta dos Termos, tinto (Belmonte)
- Casa d'Aguiar, tinto (Figueira da Castelo Rodrigo)
- Castelo Rodrigo- Alfrucheiro, tinto (idem)
- Quinta do Cardo, tinto (idem)
- Carm, tinto (Almendra)
- Arte do Côa, tinto (Foz Côa)
Mas surpresa, surpresa, foi o branco Quinta das Vermelhas (Rabaçal, Mêda). Ainda por cima é feito com uvas de agricultura biológica.Muito recomendável. Ver mais aqui.
Comeres
-Casas do Bragal (Guarda) Os pratos continuam deliciosos (comi um intrigante Pato com trombetas da morte), o serviço é impecável, o sítio é muito convidativo (porém, naquele dia, estava um pouco frio). O preço, esse, está de acordo com a qualidade do serviço. Pena que eu só possa ir lá uma ou duas vezes por ano.
mais inf:http://www.casasdobragal.com/
- Lagar Municipal. Fica em Celorico da Beira e usa também o título de Centro de Investigação Gastronómica (recuperando um antigo lagar, com vistas para o rio). Fui lá comer ... lagarada, um prato tradicional. Bom serviço, comida genuína (cabrito é o mais recomendável e açorda de faisão é o prato mais exótico). O espaço é acolhedor a telúrico.
Contacto: 271743857
- Restaurante "O Júlio" de Gouveia. Esta "casa de comeres de Júlio Lameiras" é uma "catedral" erigida pelos críticos gastronómicos, como José Quitério. Sempre achei que havia uma diferença entre o entusiasmo dos críticos e a realidade concreta. Mas,sim, o "Júlio" é um "monumento", um restaurante onde se come muito bem e onde se é atendido com simplicidade beirã. Coisa simples, pois então. Eu comi arroz de carqueja com entrecosto e não me arrependi.
Contacto: 238498016
Um bom exemplo de educação ambiental
Para além do que pode encontrar todo o ano o CISE promove também exposições temporárias (neste momento está patente uma de escultura de Ângelo Ribeiro e de Moisés Torres e outra de presépios com materiais reciclados feitos pelas escolas da cidade). Estão também disponíveis duas outras exposições (mais directamente relacionadas com a função primordial do CISE) muito interessantes: uma sobre insectos e outras sobre habitats da Serra da Estrela. As duas mostras são notáveis, principalmente, a que se refere à Serra pelo que representa em termos de investigação. Há sempre guias competentes para acompanhar o visitante. O CISE, apesar da evidente falta de pessoal, desenvolve um trabalho de verdadeira educação ambiental (comparado com outras estruturas que preferem o espalhafato de "animação de rua", o CISE é um exemplo de boas práticas) e de apresentação do nosso maior tesouro: a nossa Serra da Estrela.
Pais e escolas da Guarda, marquem já uma visita ao CISE. Por cá não temos nada de semelhante, mas deveríamos ter. O CISE conhece as suas funções e produz um trabalho didáctico e científico muito importante.
Mais inf:
http://www. cise-seia.org.pt
Sábado, Dezembro 27, 2008
Música na farmácia
Carlos Quelhas quer tratar-nos da sáude mas, ao mesmo tempo, dá-nos cultura. Ou seja, como ele próprio diz, quer associar a venda de medicamentos à fruição cultura. Instalou um belo piano branco na sua farmácia e oferece música aos seus clientes, com a colaboração de pianistas profissionais. Uma rara e bela ideia.
mais informações: http://veraprokic.com/imprensa.php
Quinta-feira, Dezembro 25, 2008
Morreu Harold Pinter
Há tempos encenei e representei, no âmbito do "Teatro de Operações", uma das suas peças: "Conferência de imprensa e outras aldrabices". De uma oportunidade e lucidez gritantes.
http://www.haroldpinter.org/
Casa do Castelo
A Casa do Castelo tem para mostrar e vender velharias, artesanato e arte tradicional local (e não só), produtos regionais (compotas, doces tradicionais, bolos, mel, queijo da Malcata, azeite e vinho- este de Figueira de Castelo Rodrigo). Tem tantas obras interessantes que jamais seríamos capazes de as descrever aqui, pelo que sugiro que visitem a Casa logo que possam. Tem também à venda vários livros de autores da Raia Sabugalense. Se quiserem completar a visita, comendo algum "prato" regional" telefonem antes a marcar (271754169 ou 962408648).
Em suma, uma Casa que é, fundamentalmente, um projecto de valorização cultural do melhor que têm aquelas terras. Nota-se que Natália Bispo e o seu marido acreditam naquele projecto cultural, tal é o entusiasmo que colocam nas palavras e acções. Eles próprios são também impulsionadores de novas formas de divulgação do Sabugal (panos bordados com quadras acerca de todas as freguesias, chávenas pintadas à mão com motivos das frequesias, etc.)
Enfim, recomenda-se vivamente. Pena é que que o espaço seja já pequeno para tantos produtos. Neste caso, talvez conviesse seleccionar um pouco melhor o que se expõe, mas reconheço que perante tanta riqueza essa tarefa será muito difícil.
PS. Durante a visita que fiz à Casa do Castelo deu-se o acaso de conhecer a "styliste" Cecília Póvoas. O trabalho dela é... maravilhoso. Faz réplicas miniaturais de vestidos rocócó e de casacas dos Século XVIII. Na Casa do Castelo há três exemplares que mostram a elevada qualidade do trabalho daquela artista nascida no Sabugal.
Segunda-feira, Dezembro 22, 2008
Inês
Felizmente, Inês Monteiro vai-nos dando umas alegrias. Pena que seja só ela ou que seja quase só ela.
Desilusão e contentamento
Avancei para outra obra acerca da qual tinha alguma curiosidade. Chama-se "O grande livro dos Portugueses esquecidos" . A sua leitura foi uma surpresa pois encontrei dados importantíssimos acerca de figuras, até aquele momento, desconhecidas para mim, sendo que algumas nasceram na Guarda. Por exemplo, Leoniz de Pina e Mendonça que nasceu e morreu na nossa cidade, no século XVIII (chegou a escrever um tratado sobre Cosmografia e um teoria da Música). Mais informação acerca deste nosso conterrâneo aqui.
Templários
Eduardo Sucena, investigador e publicista (como então se dizia) natural da Guarda acaba de lançar "A epopeia templária e Portugal", obra editada pela Vega. É autor de vasta bibliografia acerca de Lisboa, onde vive há décadas. Hoje a "Antena Um" entrevistou-o a propósito daquele seu novo livro. E, apesar de não viver aqui há muitos anos, a "pronúncia" não deixava margem para engano: é da Guarda, sim senhor!Domingo, Dezembro 21, 2008
Vale do Côa
- Que fez a Guarda, capital de distrito, para se "relacionar" com o que respresentam as gravuras?
- Que programa turístico- cultural a Guarda, capital de distrito, idealizou ou integrou de forma a aproveitar o enorme "potencial" das gravuras?
- Que aproximação teve, a Guarda, capital de distrito, com a riqueza cultural do Vale do Côa? Que roteiros editou, que actividades propôs que ligassem a Guarda ao Vale do Côa?
Passaram dez anos, mas a Guarda nem deu conta. Nada fez para ser "parte" do processo, nem para ganhar com o facto de ser capital de distrito. Limitou-se a ignorar a riqueza (indiscutível) que representam as gravuras rupestres.
Quem diz Vale do Côa diz, noutra dimensão, Serra da Estrela.
A mim, apetecia-me oferecer este livro a um político que eu cá sei. Mas é... caro e a pessoa em causa talvez não soubesse sequer de que estamos a falar do nosso... futuro!
Sexta-feira, Dezembro 19, 2008
Mundo rural

Música para todos
O Conservatório de S. José decidiu oferecer música aos que chegam e aos que partem. Dezenas de crianças a cantar e a tocar. É uma excelente iniciativa de animação e de dessacralização da música erudita. Mobiliza muitas pessoas e leva a música a pessoas que habitualmente não têm acesso a actividades artísticas. Algumas param para ouvir e outras acham o ajuntamento uma maçada (mas sempre ouvem algo de novo, nem que seja por segundos). Eu julgo que é com iniciativas como esta que havemos de tornar mais democrática a fruição cultural na nossa cidade.
Parabéns, pois, aos promotores.
Quarta-feira, Dezembro 17, 2008
Cercig
Como sabem, a Cercig tem um grupo de música que é, acima de tudo, um bom projecto de envolvimento de jovens "diferentes" chamado Hip Hope.
Queijo (2)
Estão respondidas as minhas perguntas. O queijo chama-se "Quinta do Pontão". O evento foi, em Novembro, em Valladolid e foi organizado pela Junta de Castilla y Léon e pelo Instituto Tecnológico Agrário da região. A Lusa diz que estiveram a concurso 600 queijos, mas no rádio disseram 300.
Pelos vistos a empresa não tem sítio na Net senão eu divulgava-o aqui.
Estacionamento
Já é para mim difícil entender este comércio dos lugares públicos (sou contra), especialmente se não houver outras alternativas, mas, respeitador, lá vou meter a moedinha. Não me deixam. Dei uma volta pela cidade e há muitos avariados! Ao que costumo usar mais vezes é preciso bater-lhe, dar-lhe um soco para funcionar.
Será desleixo ou a autarquia está a abandonar esta política de "rentabilizar o espaço público" ?
Queijo de cabra de pasta mole
Imagina o meu leitor uma "notícia deste tipo: "Vinho do Rio Diz ganha primeiro prémio de concurso de vinhos em França!"?. E mais nada. Neste caso, as interrogações eram legítimas: o prémio será o de uma tasca portuguesa de Paris? De uma grande cadeia de supermercados? Bem, acho que não é necessário dizer mais nada.
A peça, aparentemente jornalística, adquire assim uma dimensão publicitária inaceitável num noticiário, na minha opinião. Para isso há espaços de publicidade paga e... as coisas não se devem confundir.
Apesar da ausência de informação acerca do tal concurso, digo bem, na mesma. O queijo de cabra, de pasta mole e feito com leite pasteurizado é um bom produto. Conheço-o e gosto dele.
E, já agora, parabéns pelo prémio, tenha o prestígio que tiver.
Terça-feira, Dezembro 16, 2008
Putativos
- Joaquim Valente, apoiado pelo PS de Sócrates.
- Ana Manso, lançada pelo Rádio Altitude.
- João Prata, patrocinado pelo ele próprio e pelo núcleo de S. Miguel do PSD.
- Abílio Curto, com o alto patrocínio do Restaurador Olex, da pasta medicinal Couto, de vários empreiteiros anónimos e por uma parte sinistra (esquerda?) do PS.
- Crespo de Carvalho, suportado por uma empresa de sondagens grátis, por um grupo de monárquicos na clandestinidade e pela facção PSD dos Amigos do Museu.
- Eduardo Espírito Santo, motivado pelo slogan "Nem Valente nem Manso, vota Espírito Santo".
- Agostinho da Silva (financiado pelo lóbi dos vendedores da carne de vaca jarmelista).
Começo a não saber em quem hei-de votar. Só decidirei quando souber quem são os assessores de imprensa, os consultores de imagem e os técnicos de marketing que servirão aqueles candidatos.
Sic
Mesmo que não concordemos, de vez em quando, com a maneira como são abordados alguns temas ou com algumas mensagens subliminares, a verdade é que quase todos os dias temos o nome da Guarda na televisão. Muitas vezes são peças acerca de "fait divers", para encher os noticários. Mas mesmo através desses assuntos mais ligeiros se divulga a nossa terrra (e,muitas vezes, em horário nobre). Não espero muito do trabalho da correspondente (conheço o interesse das televisões), nem acho que, de repente, ela vá interessar-se pelo que a mim muito me interessa (a cultura), mas ... é um facto: a Guarda passou a aparecer mais na televisão.
E agora a televisão
Na próxima sexta-feira, dia 19 de Dezembro, pelas 15h30, no Cybercentro da Guarda será feita a apresentação pública do projecto de Televisão Regional “Localvisão TV”. O Cybercentro terá estabelecido uma parceria com a Localvisão TV, para dinamização dos catorze canais concelhios (!!!).
Pessoalmente estou com uma grande curiosidade acerca do que vai sair dali. Da televisão local, claro. Neste momento, não sei se é, apenas, um projecto de promoção ou um projecto jornalístico (sim, eu sei que nalguns casos isto anda tudo ligado!). Esperemos até sexta para saber mais.
+ : http://www.localvisao.pt/index_simples.html
Segunda-feira, Dezembro 15, 2008
O caos no tribunal
Estava tudo bem até que a jornalista envereda por um "estilo poético-alarmista". Então, não é que ela declara que quando o quadro dispara... "instala-se o caos" no Tribunal da Guarda??!!! O caos???? Nem mais nem menos! Deve ser por causa do quadro... disparar.
Citação da Lusa
O destaque da programação para os meses de Janeiro, Fevereiro e Março hoje apresentada pelo director do TMG, Américo Rodrigues, vai para um concerto de gelo, que é considerado o "mais exótico de toda a temporada".
O espectáculo está agendado para dia 27 de Março e o músico Terje Isungset (Noruega) "faz uma primeira parte com instrumentos de gelo e uma segunda parte com instrumentos de coisas que apanha na natureza, como pedaços de madeira e folhas", descreveu aquele responsável, na conferência de imprensa de apresentação da programação para os três primeiros meses do próximo ano.
"É um espectáculo único em Portugal e, pela primeira vez, faz-se um concerto desta natureza no nosso país", assinalou Américo Rodrigues.
Segundo este, no mês de Fevereiro está de regresso o Inblues -- Festival de Blues da Guarda, com a participação de Benjamin Tehoval (França, dia 05), Sons of the Delta (Inglaterra, 20), Nobody´s Bizness (Portugal, 26) e Honeyboy Hickling (Inglaterra, 27).
Em Janeiro de 2009, o TMG lança uma iniciativa denominada "Famílias ao Teatro", que consta da organização de "sessões específicas para que as famílias venham juntas", referiu.
As actividades irão decorrer nas tardes de sábado e são iniciadas no dia 17 de Janeiro com o espectáculo "Peter Pan", pela Companhia Magia e Fantasia.
Seguem-se "Carochinha apresenta um concerto no ervilhal", dia 07 de Fevereiro e "Agora eu era ...", dia 07 de Março.
No capítulo musical estão previstos concertos de Susana Félix (31 Janeiro), Tanya Tagaq (Canadá, 13 Fevereiro), Buika (Espanha, 14), Ena Pá 2000 (28), Paulo de Carvalho (13 de Março) e Peixe: Avião (05), entre outros.
Estão também programadas exposições de José Teixeira (tecelagem, esculturas, desenho e instalação), entre 17 de Janeiro e 08 Março, e de João Cutileiro, entre 21 de Março e 17 de Maio.
O TMG continua a apostar nas acções educativas, organizando um ciclo dedicado à Pedagogia Waldorf sobre o tema "A arte de educar", com oficinas, teatro e uma conferência.
Nos primeiros três meses de 2009, o TMG organiza um total de 60 actividades, sendo 17 concertos de música, dez espectáculos de teatro, cinco acções de formação, 15 actividades na área do cinema, três na área da dança, seis exposições, o lançamento de um livro, um espectáculo de cine-concerto, uma conferência e um debate.
Pelo teatro municipal passarão artistas e companhias de diferentes nacionalidades, garantindo o seu director que a programação é de "muita qualidade" e destina-se a "todos os públicos".
O vice-presidente da Câmara da Guarda, Virgílio Bento, também presente no encontro com a imprensa, disse que "o rigor financeiro [da empresa municipal Culturguarda, que gere o TMG] nunca pôs em causa a qualidade da programação".
A Guarda, vincou, possui um equipamento cultural "de qualidade" de "dimensão regional" que ultrapassa as fronteiras do concelho e do distrito.
ASR.
Lusa/Fim"
Ana Manso e o frenesim
Por outro lado, só por puro marketing percebo que a Rádio Altitude declare até à exaustão que Manso pode ser candidata à Câmara da Guarda. Ela limitou-se a responder a uma pergunta como outro militante o faria, dizendo que o futuro só a Deus pertence e que não viraria as costas ao partido. Mas a auto-promoção dos órgãos de informação "obriga-os" a empolarem situações ou a criarem factos (ela não anunciou nada, respondeu a uma pergunta que já continha meia resposta. Ela só podia dar aquela resposta ou... acham expectável que ela dissesse, tendo a posição que tem, que voltava costas a uma obrigação de todos os militantes?!!!) que, num processo de frenesim a que ninguém resiste, serão comentados e recomentados. Neste caso, os comentários foram de João Prata e Virgílio Bento - os dois, com uma correcção indesmentível- e também por essa sumidade da análise política que dá pelo nome de Curto, agora catapultado pelo Rádio Altitude à condição de estrela (embora decadente) das ondas hertzianas. Claro que este Curto não desperdiçou a oportunidade de espetar umas farpas a Valente e ao seu (dele, Curto) "ódio de estimação", Maria do Carmo, fingindo, ao mesmo tempo, elogiar o espírito de lutadora de Manso. Quem não o perceba que o "compre"! O Rádio conhecia-o e, no entanto, "comprou-o".
Resumindo: Manso esteve bem como entrevistada, mas de tudo o que disse a Rádio aproveitou uma resposta (não poderia haver outra) que pudesse alimentar um processo de auto-promoção. Ou seja, estamos perante um caso de autofagia jornalística. Porém, paradoxalmente, ninguém pode negar que Manso não admitiu estar disponível para uma terceira corrida! O director do Rádio, que também conduziu a entrevista, sabe disto melhor que ninguém. Não resistiu a criar um facto político que, noutras circunstâncias, não teria qualquer importância. Facto político aproveitado a favor do Rádio mas não de Ana Manso. Logo a seguir o mesmo rádio lembrou que João Prata dissera já o mesmo que Ana.
A voragem, o frenesim e o sensacionalismo são muito difíceis de evitar. São...uma tentação.
Cronistas
Se, então, percebemos o fenómeno no que se refere aos jornalistas (no fundo, o processo não é muito diferente do que acontece com outros profissionais, apesar destes serem mais moralistas), gostaria de esclarecer agora outro mistério: como se chega a cronista num órgão de informação regional?Sinceramente, e olhando para a realidade, parece não haver qualquer critério coerente na selecção de cronistas/colunistas. Será, também, por cunhas que determinadas figuras chegam à imprensa, usufruindo do pequeno poder que é ter um espaço de opinião? A confusão é muita, não se entendendo o que leva um órgão de informação a convidar esta ou aquela pessoa para dar opinião. Será que existe alguma lógica na selecção dos cronistas (teoricamente, "fazedores de opinião")? A lógica, nalguns casos, parece ser "ocupar" o espaço com "opinião", quando a "informação" é frágil. Mas devem existir outros critérios que não vislumbro. Isto porque o que vejo e oiço é, no mínimo, desconcertante: redacções da quarta classe, sem rasgo criativo, sem coragem, sem ideias. Mas, vejamos, para que servem aquelas opiniões, melhor, por que lemos ou ouvimos aquelas pessoas?
Era norma que os órgãos de informação tivessem como cronistas pessoas inteligentes, com ideias originais, que soubessem interpretar a realidade, com coragem e determinação. Pessoas com frontalidade, com capacidades de argumentação e com algum carisma. Uma elite. Não a vulgaridade, a mediania. Exemplos nacionais: Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares, António Barreto, Pacheco Pereira. E os meus preferidos: Manuel António Pina e Manuel Poppe. Mas a nível local quem temos que se assemelhe (tendo em conta as devidas proporções) aos nomes referidos?
Na Guarda, optou-se por encher o espaço (dos jornais e das rádios) com pessoas que têm muito pouca qualidade argumentativa. Como foram seleccionados? Às vezes por serem amigos do director ou do chefe de redacção.Outras vezes por se terem oferecido. Muitas vezes por pobre aritmética de equilíbrio partidário. Mas há pior: alguns são sugeridos por amigos com ligações aos partidos, em conversas de café ("Olha lá, devias convidar aquela senhora que saíu do armário e está disponível para os próximos desafios eleitorais!"). E ainda pior: convida-se a pessoa porque é ressabiada e, portanto, vamos ter sangue e polémica.
O que sei é que a opinião publicada/radiodifundida é de fraca qualidade. Quais são os cronistas que, verdadeiramente, influenciam decisões? Quais os "fazedores de opinião" que são entendidos como "referência"? Quais são os que têm, por exemplo, qualidade de escrita? Quais são os que pensam, verdadeiramente, pela sua cabeça e procedem de forma independente? Quais os cronistas que mereciam,mesmo, ter um espaço de "poder"?
PS- Claro que há excepções. As generalizações são sempre injustas.
Domingo, Dezembro 14, 2008
Mimo
Posto isto, desliguei o Rádio e fui comprar o jornal. Desde sábado que ainda não arranjei "coragem" para ouvir o resto da entrevista (disponível no sítio http://www.altitude.fm/). Talvez amanhã consiga ouvi-la. E quem me dera surpreender-me!
Padrinhos
Há quatro tipos de apadrinhamentos:
- completo (21 euros mensais)
- escolar (13 euros mensais)
- colectivo de uma turma (26 euros trimestrais)
- escola rural ( 35 euros mensais).
Os padrinhos recebem periodicamente cartas e fotografias com novas dos seus afilhados.
+ inf: www.helpo.pt
Sábado, Dezembro 13, 2008
Os postais da Guarda
Através deste livro ficamos a conhecer a Guarda e a sua "evolução" ao longo dos tempos. Ora, ficamos também a perceber, mais claramente, que nalguns casos o que existiu foi "involução" (por exemplo, a destruição do belo Largo de S. João). Nesse sentido, muitas vezes, olhamos para os postais com grande nostalgia e até com pena ("Por que destruíram o que era tão bonito?"). Assim, este livro é um precioso auxiliar para que se faça uma História da Guarda, mas é, também, um documento contra políticas que destruíram espaços harmoniosos, numa voragem destrutiva a que chamaram "progresso".
PS. Três reparos:
- Não me parece correcto que haja um capítulo chamado "Estação da Refer", numa obra que se refere aos anos que vão de 1901 a 1970. Nessa altura não havia Refer. Correcto, pois, seria "Estação dos Caminhos de Ferro".
- A obra ganharia se tivesse havido uma revisão do uso da língua portuguesa.
- O uso exagerado de "fundos" gráficos que reproduzem postais, sobre os quais se publicam outros postais, produzem um "ruído" /uma dispersão evitável. Teria preferido ver os postais sobre "fundos" uniformes. Ou seja, teria gostado da simplicidade que os gráficos, às vezes, evitam.
Sexta-feira, Dezembro 12, 2008
Postal de Natal

Quarta-feira, Dezembro 10, 2008
Machado em Peñaranda
Aderência
Segunda-feira, Dezembro 08, 2008
Fim de semana
- O Parque é belíssimo, bem tratado e bem assinalado. Estradas agrícolas, sem túneis nem casino. Natureza, pessoas, produtos da terra. Autenticidade.
- La Alberca é uma "jóia" mas o excesso de turistas (alguns, são autênticos predadores) deixa marcas, deixa pegadas difíceis de apagar. Mel, vinho, amêndoas, pimentos. Procuro uma loja de uma velhinha que vendia cerâmica com motivos tradicionais. Não a encontro. Deve ter morrido.
- Em Miranda de Castañar existe uma bela Pousada. Trata-de de uma estrutura que foi pensada para dar emprego a "deficientes mentais" (www.posadamiranda.es), que se ocupam de diversas tarefas. É uma iniciativa pioneira de grande importância. Talvez por cá se copie o exemplo. Quando?
- Numa loja de um "pueblo" remoto encontro discos à venda de Gabriel Calvo (o César Prata daquelas terras). Aqui, seria impensável...
- Em Béjar (cidade geminada -mas pouco- com a Guarda.) , as ruas do centro histórico estão cheias de gente, apesar do frio. A maioria veio por causa da estação de esqui La Covatilla que abriu há dias. Visito o museu municipal dedicado à obra de Mateo Hernández, grande escultor e senhor de uma obra consagrada (www.aytobejar.com/turismo) a nível nacional. Há anos que estou a tentar organizar uma mostra dele na nossa cidade, repito, geminada com Béjar (que é, diga-se, muito parecida com a Covilhã).
- Salamanca é "única". Há uma exposição de grandes esculturas na Plaza Mayor, um dos sítios mais belos do mundo. O meu filho diz-me que as esculturas "tapam" a praça e é capaz de ter razão. "Despida" é mais imponente.
- A loja da Casa Liz (Museu de Arte Déco) e o "Mercadus" da Universidade têm produtos de bom gosto para vender aos turistas. É uma grande fonte de receita, pois os produtos são diversificados, de bom gossto e de grande qualidade. Faço um paralelismo com a Guarda. O que temos para vender aos como "merchandising"?
- Esta zona parece ter melhores condições que a nossa (ambientais, patrimoniais, etc.). Mas alguém teve que fazer por isso, não é? Ou seja, há ali anos de trabalho esforçado e de aposta num projecto de desenvolvimento.
-Las Hurdes? Para mim é, sempre, um filme de Buñuel.
Sexta-feira, Dezembro 05, 2008
Prenda de Natal

Infelizmente, não o tenho visto pelas livrarias, o que quer dizer que a editora se terá esquecido dele, depois de ter sido uma novidade. Como já tem uns meses... o livro é quase clandestino. No entanto, parece-me ser, mesmo, uma boa prenda para as crianças, neste Natal. Como não sei se vende na minha (nossa, pois o Alexandre também é da Guarda) deixo aqui a morada da editora:
http://arcadasletras.no.sapo.pt/
A este propósito, fica aqui a crítica feita pela Professora Doutora Antonieta Garcia à citada obra:
"Ainda que a obra literária não convoque todos para a mesma festa, como disse Umberto Eco, afirmamos que O Céu da boca, de Américo Rodrigues e de Alexandre Gamelas, oferece um animado banquete.
Começa-se pelo título, um triunfo, o sintagma de identificação do texto. O Céu da boca é a palavra à solta, e lê-la, dizê-la, permite o retorno / ascensão a uma liberdade primordial, harmónica. A voz transgressora de Américo Rodrigues desafiou-nos para o desfribrar, o fruir a polissemia da obra, para uma relação de “racionalidade afectiva” com o texto.
Ludicamente, indisciplina a palavra, cria situações/ condições motivantes de combinação e de enriquecimento de diferentes semânticas do real. A tradição e a modernidade acasalam – o Papa formigas é trava línguas em alforria; Crocodilo joga com a homografia (...Percebes? – O percebes é um crustáceo); com o ponto de exclamação (Coitadinho do ponto de exclamação / Sempre a exclamar / a clamar!); números cabalísticos são ironizados em A bicha de sete cabeças que pensa sempre/ sete vezes/ o que fazer/ com as setenta patas/ e/ os setecentos braços/ e/ os sete mil olhos; Há um feijão que é frade a aproximar-se das histórias sem fim, tradicionais, mas com autonomia total -.
Em todo o texto, as vocalizações, as rimas surpreendentes radicam na exploração dos recursos gráficos e sonoros das letras, dispostas em várias direcções, em demanda de outras, novas linguagens. Vanguardista, Américo Rodrigues saboreia esta forma de manejar fonemas e grafemas, anima novas categorias do dizer, do começo ao fim do livro.
Desviando-se da dimensão vertical da coluna e horizontal das linhas, letras e espaços em branco exploram sentidos – Sou uma lagarta/ Pre gui ço sa! Gosto muito de/ Dor mir! (...); o S desenrola-se: Sim ou sopa? / Sim ou sumo? / (...) e salpicão, e salsicha e salada e sabão e santola, sardinha, sarrabulho..., em jogo de perguntas com um Não! a finalizar várias estâncias, até conseguir fazer entrar a colher da sopa, na boca da Simoneta; o divertido Papa formigas poderá ter a mesma função; o Z desvaira: O Zé/ gosta da palavra/ ziguezague/ não sabe por que é que o Zigue/ ziguezagueia/ nem por que é/ que a Zagueia / gosta do Zigue/ nem por que é/ que o Zi/ que zagueia (...) / até que passe a andar sempre / em linha recta –.
Surrealista, dotado de sensibilidade especial para as palavras, para os seus recursos, o escritor inventa-as e reinventa-as em sintaxes lúdicas – ziguezaguiário, O búzio/ tem um som misteriúzio/ O marúzio / do meu búzio / tem um som estranhúzio (e outros úzios...). Leão papão (...) Com cola rápida/ rapidamente/ colarapidamente... -.
O humor, tão raro em textos para crianças, advoga novo prazer de ler, dizer e brincar – O/ Renato/ que é um pato/ aliás/ que parece um pato/ lilás (...); O Cágado não pode perder/ o acento. / O asterisco/ é / melhor que o marisco! / O pinguim faz um chinfrim! Pois sim! Pim! Pim! Pim! Pim! Im! Im! A vaca Valquíria / (...) A vaca é cantora/ de ópera... –
Américo Rodrigues parodia a rima, o significado ortodoxo das palavras, e desafia o leitor a entrar no mundo dos re-criadores de literatura, guia-o num projecto que o desfrute do texto concretiza.
O Poeta sabe-se um vidente da palavra: sente-lhe a materialidade vocal, a melodia, os tons cromáticos, a maciez ou a aspereza... frui o Verbo. Entrega-se voluptuosa e magicamente aos sons, enleia o emocional e o racional, o visto e o ouvido, o captado e o reflectido, a fugacidade e o permanente... os fragmentos de todos os instantes.
Possuído por palavras que ganham corpo, sentidas diferentemente, dinamizadas pela acção da fantasia e do jogo, criança e adulto (que não perdeu o menino que tem dentro de si), poderão relacionar-se de forma nova com a linguagem. O Céu da Boca sugere a integração de jogos verbais, a experimentação da palavra em situação de liberdade, e desencadeará um prazer renovado. Praticados em oficinas de escrita, em modalidades que pedagogos e surrealistas divulgaram, constituem um desafio; jogar com sons, com grafemas, com vocábulos, com significações desvela potencialidades da língua. Ensaiar a expressão do ritmo e das figuras fónicas, a disposição gráfica e os tipografismos, experimentar o carácter cinético e cinemático do texto é a viagem fascinante em tapete de feiticeiro... que O Céu da boca oferece. Como defendia o Grupo Francês de Educação Nova estes textos e jogos podem reconciliar poesia e pedagogia.
Esta obra fará as delícias de qualquer professor de Português. Quem quiser inovar, deixe-se enfeitiçar, deleite-se com os desafios que a aliança entre palavra, música, gesto e imagem suscitam. Se souber e puder, faça este pacto com o texto. Na (a)ventura da escrita e da leitura há uma luz visível que guia o diálogo com o processo de criação entretecido na viagem ao tempo da infância. Temas e motivos recorrem a vozes contadas e lidas, as emoções desenrolam-se no teatro das palavras; aqui velejam velhas palavras de histórias infantis com a imaginação a juntar pontas de símbolos e de fios que urdem outros novos textos...
As ilustrações de Alexandre Gamelas, transgressoras, criativas, afinam os sentidos, criando movimento numa teia de cores vibrante, brincalhona, que acompanha e enriquece o texto. O poder da criatividade tece-se com palavras e imagens em O Céu da Boca.
Maria Antonieta Garcia"
Entrevista a Maria Lino
Maria Lino: Arte Essencial
Por ela um poeta criou um verbo e um verbo não se cria por dá cá aquela palha. Maria da Luz vive dentro do verbo criado pelo poeta. Maria (que roubou a Luz ao seu nome, oferecendo-a aos olhos, agora que vê melhor) acusa a responsabilidade de ser verbo conjugável. Passa o tempo a luzlinar. A iluminar as mãos, a madeira, a terra primordial (o barro), o papel, as coisas encontradas.
Maria Lino - Queres chá? Já está aí na mesa, à tua frente. Quentinho!
Américo Rodrigues - E que chá é este?
- É chá preto, veio da Alemanha, tem umas folhas bastante grandes e… é o chá que eu prefiro (risos).
- Gostas muito de chá?
- Gosto. Habituei-me na Alemanha …
- Chá de manhã e vinho à tarde…
- …E vinho à noite. Depois das 6 horas…
- Maria, quando e onde nasceste?
- Nasci aqui no Feital, no edifício da Escola Primária, que tinha uma pequena divisão para habitação e uma cozinha, onde residia a professora…
A minha mãe veio como regente para o Feital e acabou por namorar com o meu pai que era filho ilegítimo de um dos lavradores ricos da aldeia. Eu nasci ainda no edifício da escola. Depois, eles casaram e compraram uma casa maior atrás da igreja...
- Nasceste numa escola primária onde a tua mãe era regente. E o teu pai era um agricultor…
- Sim, a minha mãe era regente e o meu pai estava no começo de vida como agricultor. Tinha duas vacas para o trabalho no campo, uma égua para o transporte, criava porcos para matar, tinha coelhos, galinhas…
- E tu foste a primeira de…
- De seis irmãos. E por ser a primeira também fui criada de uma forma… a que normalmente chamam de “maria-rapaz”. Ia com o meu pai para todo o lado e via os trabalhos do campo, conhecia os caminhos, os animais… Quando uma vaca paria, o meu pai chamava-
-me para ir ver e para ajudar. Eu não ajudava nada… era mais aquela coisa de estar à espera e ver como corria tudo…
- Ainda te sentes um bocadinho “maria-rapaz”?
- Sim, mas não com o peso que isso deveria ter. Assumindo isso há uma certa liberdade, é tudo uma questão de opção.
- E isso é assumido por ti?
- É assumido. Eu recuso-me a fazer as coisas que as mulheres esperam que eu faça por ser mulher, por exemplo, limpar o pó…
- …ou que os homens esperam que elas façam…
- E os homens também, mas é ainda pior o que elas esperam: limpar o pó, ver se o chão está limpo… uma série de coisas que para mim não são importantes há muitos anos. Recuso-me a ser uma dona-de-casa! Isso para mim nunca foi importante. Decidi fazer outras coisas.
- Estudaste cá no Feital? Na escola da tua mãe?
- Fiz a escola primária na tal escola onde nasci… O exame de admissão ao Liceu fui fazê-lo à Guarda. E foi curioso porque eu não conseguia fixar as coisas… e a História de Portugal era aprendida decorando e eu sempre detestei aquela História – que nunca me disse nada, ainda hoje não me diz nada. Era a História “de cima” e não a nossa História.
- Era a História dos poderosos, no fundo…
- Dos poderosos, dos reis, das guerras ganhas e das guerras perdidas. Dos soldados nem se falava. Lembro-me que nesse exame de admissão ao Liceu, na Guarda, fizeram-me uma pergunta que eu nunca esqueci: “Porque é que a Madeira é um local de turismo?”. Eu nunca tinha ouvido a palavra turismo e pensei: deve haver lá muitos touros!
-E depois? Foste admitida?
Fui admitida mas a professora ficou muito embaraçada. Disse-me que eu era a vergonha dela…
- Então não era a tua mãe a professora…
- A minha mãe nunca foi minha professora. Ela quando teve o terceiro filho apanhou uma anemia. Trabalhava muito. O meu pai costumava dizer que a escola era o descanso dela e quando chegava a casa é que tinha que trabalhar a sério. Tinha que cozinhar para os filhos e para os trabalhadores, fazer a limpeza da casa, e ela limpava mesmo, também era ela que nos fazia a roupa…
Lembro-me que no Inverno, quando os dias eram mais pequenos, ficávamos todos junto à lareira e ela contava-nos estórias, das mil e uma noites, por exemplo. Até que a certa altura, a minha mãe, que não tinha tido uma educação religiosa, influenciada pela vida com o meu pai, começou a ir à missa e a rezar todas as noites. E nós tínhamos que a acompanhar nas orações. N’algumas ocasiões dava-me o terço para eu contar as pedrinhas, as contas, e eu a certa altura começava a fazer batota, até que eles se aperceberam e começaram a controlar…
- E como é que era o Feital nessa altura? Uma terra demasiado pequena…
- Era uma terra com muitas crianças. Eu lembro-me das brincadeiras e das correrias. As pessoas eram quase todas dependentes, pois trabalhavam para outras, chegavam mesmo a ir para outras aldeias a trabalhar. Na altura das ceifas e da desfolhada do milho, o trabalho era comunitário. E mesmo na matança do porco havia o espírito de entreajuda.
Na altura lavavam a roupa num tanque que havia ao pé do chafariz e…
- Voltando um pouco atrás, há pouco dizias que foste fazer o exame de admissão ao Liceu da Guarda. Ficaste por lá?
- Não. Eu devia ter na altura nove anos… e depois do exame mandaram-me para o Porto, para a casa de uma irmã da minha mãe e fui para o Liceu “Carolina Michaëlis”. Andei lá só um ano. Aquilo foi um dos grandes choques da minha vida… de repente, no Porto, fico no terceiro andar de uma casa onde contavam o tempo que eu demorava no caminho de casa para o Liceu e no percurso inverso… estava ali como um pássaro numa gaiola.
- Quem é que contava…
- A minha tia… e… aquilo foi terrível.
- Estiveste lá um ano e depois foste para onde?
- Depois a minha tia disse que eu era burra, que não tinha capacidade para continuar a estudar e que era melhor colocarem-me numa escola mais ligada aos trabalhos manuais. E então colocaram-me na Escola Aurélia de Sousa, uma escola só de raparigas também. E da Aurélia de Sousa passei depois para a escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, numa espécie de preparação para as Belas Artes.
- Depois entraste para as Belas Artes…
- Porque a tia também dizia que as Belas Artes eram uma coisa boa para uma rapariga: tirava o curso, podia dar aulas, casar e constituir família. Sem que para isso – segundo a tia – precisasse de muita inteligência!
- E foi isso que aconteceu, foste para as Belas Artes…
- Fiz a admissão às Belas Artes. E aí aconteceu uma coisa… De repente eu tive das melhores notas de entrada nas Belas Artes. E foi então que começou a vida das artes plásticas.
- E como é que tu eras como jovem? Como rapariga a despertar para a vida? Despertar, é como quem diz… já vivias no Porto há uns anos…
- Sim. Ainda estudava na Soares dos Reis quando arranjei um namorado e ficávamos de mãozinhas dadas, à espera dos autocarros, porque fazíamos itinerários diferentes… Mas essas coisas acabavam sempre porque se ele chegava tarde chateava-me e acabava com tudo…
- Mas já ias, assim… como dizer…
-Ainda não ia com ele para a cama…
-Não, não é isso. O que eu queria perguntar é se já na altura tinhas curiosidade por outras coisas, como a literatura ou o teatro?
-Por literatura, sim. A tia e o marido tinham muitos livros que deixavam que eu lesse. Ouviam música
- Mas tinhas o convívio com os teus colegas, ir ver exposições… ou não?
- Com os meus colegas das Belas Artes, não.
- E quando é que foi que viste a primeira exposição de artes plásticas?
- Isso é difícil de dizer. Eu lembro-me, sim, do primeiro filme que vi, com a minha tia, um filme para católicos… lembro-me da criancinha a chorar e de eu chorar e de todas as crianças presentes na sala o fazerem também. Chamava-se “O milagre segundo Malaquias”. Algo terrível.
- Lembras-te do primeiro filme, mas não te lembras da primeira exposição… qualquer coisa que te tivesse impressionado, tu que estavas a começar a aprender… não te lembras? Não seria lá na própria escola?
- Na escola… Logo em 1962, os professores colocaram trabalhos meus nas exposições colectivas. Houve mesmo uma compra, por parte da Fundação Calouste Gulbenkian de uns desenhos meus…
- Tiveste professores marcantes, de que ainda te recordas?
- Um muito marcante foi o António Quadros, no primeiro ano. Ele não gostava muito da escola e acabou por sair. Mas deixou-me o contacto e eu mandava-lhe desenhos pelo correio e ele devolvia-os com correcções e com explicações.
- Com correcções?!?
- Sim, ele colocava uma folha de papel vegetal no meu desenho, e desenhava por cima daquilo que me queria chamar a atenção, ou por ser bom, ou por ser mau. Ainda tenho algumas dessas cartas.
Outro professor muito importante foi o Lagoa Henriques. Porque apoiava e gostava muito dos desenhos que eu fazia. Isto foi talvez… em 1962.
Entretanto, antes de fazer os 21 anos, eu comuniquei à tia que ia sair de casa.
- Era a idade da maioridade, não era?
- Sim. E ela disse-me que eu devia escrever uma carta ao pai. E assim fiz. Escrevi ao pai a dizer que ia sair de casa e que se ele quisesse ajudar-me, muito bem, e que se não quisesse ou não pudesse, eu iria sair na mesma.
Entretanto, saí e comecei a trabalhar e a estudar ao mesmo tempo.
- Onde é que trabalhavas?
- Arranjei um apartamento na Rua Alexandre Herculano e por acaso, o arquitecto Pulido Valente tinha o ateliê dele no andar de cima. E trabalhei lá, fazia desenhos para ele, já não sei por quanto tempo… uns meses talvez.
Também fazia ilustrações para capas de livros… as primeiras fi-las por intermédio do António Quadros.
“Branca” é um dos animais que vive com Maria. Cães rafeiros, gatos, também rafeiros, a espreguiçar-se: a ter tempo. Testemunhas das palavras que trocamos, os animais espreitam-nos. Olham pela Maria, desconfiam do homem perguntador. A certa altura, uma gata há-de, mesmo, interromper a conversa. Bate à porta em urgência, procura os filhos: mais tarde hei-de roubar-lhe um a que chamo Luigi. Sai-se da casa de Maria e encontra-se um burro, duas vacas e vinte cabras. Dentro, uma pele de cobra, caveiras de carneiros, uma carapaça de um cágado, cinco ossos de dador desconhecido, três besouros, quatro escaravelhos, duas libélulas desenhadas e uma mosca que sobrevoa o percurso dos dedos. Maria há-de falar também de um louva-a-deus fêmea que come um louva-a-deus macho, suprema catarse. E eu lembrarei também uma cena de um filme seu: um círculo de fogo e dois lacraus suicidando-se: harakiri.
- Estiveste no Porto mas, a certa altura, mudaste para Lisboa…
- Isto no Porto ainda demorou uns tempos. A certa altura um colega pediu-me para eu dar explicações de Belas Artes ao Vitor Pomar, e foi assim que eu o conheci, ainda no Porto. Só em 1967 é que fui para Lisboa, com ele. Saímos do Porto para Lisboa porque havia mais trabalho e possibilidades de trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Mas, na altura, ninguém nos alugava um apartamento porque não éramos casados.
- Ninguém vos alugava um apartamento porque não eram casados?
- Sim,
- Quer dizer, começaste por lhe dar explicações, ele que tinha um pai que lhe podia dar óptimas lições…
- Mas o pai estava em França e estava separado da mãe há já muito tempo.
- A dar explicações, apaixonaste-te por ele …
- Essas coisas acontecem a dois.
- E depois em Lisboa… Escola de Belas Artes na mesma…
- Belas Artes na mesma porque em Lisboa era mais fácil arranjar trabalho.
Entretanto, o Victor consegue uma Bolsa de Estudo. Eu já não consegui porque, como comecei a trabalhar, não conseguia fazer as cadeiras todas num ano e para se poder ter bolsa não se podem ter cadeiras atrasadas. E havia um professor que era o Charters de Almeida que me fazia a vida negra, por eu não assistir às aulas todas…
- Em Lisboa estiveste muito tempo?
- Não. Uns três ou quatro anos, só. Quase que não conheço Lisboa.
- Mas imagino que a vida em Lisboa fosse um pouco diferente da do Porto… ou não? Não conheceste outras pessoas mais interessantes…
- Eu conheci muita gente. Eram uns anos políticos, aqueles. Em Lisboa tive um professor que era um terror para mim, o Duarte de Almeida – esse é que já morreu – que me perguntava se eu fazia assim para parecer moderna. O assim eram coisas simples e não lambidas. Tínhamos cadeiras de Escultura em barro e havia pessoas que lambiam o barro todo, passavam uma coisa húmida para ficar muito lisinho.
- E tu não…
- Eu não. Eu fazia com massas fortes e batia com o martelo e deixava ficar as dobras do barro e as pancadas. O que me interessava era o volume. Um dia eu estava a fazer um trabalho para um panfleto que ia sair e ele foi-me lá perguntar o que é que eu estava a fazer, e eu expliquei-lhe que estava a fazer uma ilustração para um poema. No dia seguinte já circulava o panfleto na Escola e ele veio ter comigo e disse-me: tão novinha e já sabe mentir! E estava muito chateado!
- Era, então, um panfleto político…
- Sim. E clandestino. Apesar disso, na primeira exposição que eu fiz em 1968, ele comprou-me um desenho…
- Mas, tu lembras-te de quem te compra os desenhos?
- Dele lembro-me, porque o conhecia muito bem. Lembro-me também que o Museu de Arte Antiga – que agora é o Museu do Chiado – também me comprou trabalhos.
Mas eu não tinha grandes contactos, salvo as pessoas que lidavam comigo no dia-a-dia. Até mesmo nas exposições… os recortes dos jornais… os textos que apareciam, em muitos casos, quem escrevia não sabia se eu era homem ou mulher. Num até apareceu M. Luís Lino…
- M. Luís Lino??? Mas essa tua imagem… Tu querias que persistisse essa dúvida, se eras um homem ou uma mulher?
- Foi sempre igual para mim… Quer dizer… nunca tive necessidade de me vestir à mulher para tirar qualquer dúvida às pessoas. Isto para mim não tem importância nenhuma.
- Mas tem importância seres mulher…
- Se não fosse mulher, era outra coisa, não era eu. Não é?
- Mas sentes-te bem no papel de mulher…
- Sinto. Sinto-me bem no meu papel.
- É desta altura, de Lisboa, o poema que te escreveu o Alexandre O’Neill ?
- Sim, é dessa altura. Escreveu-o para a minha segunda exposição, em 1969.
- Então, quando é que foi a tua primeira exposição?
- Foi em 1968.
- Em 68… e logo na Galeria “Diário de Notícias” que era uma galeria importante, ou não?
- Sim, na altura era. Foi, foi a primeira individual. Esta exposição tinha um convite muito bonito, que era o pormenor de um auto-retrato. Com um texto do Lagoa Henriques.
- E quem te convidou para esta primeira exposição?
- Foi o Lagoa Henriques quem tratou de tudo. As pessoas gostaram muito dos meus desenhos! O Júlio Pomar comprou-me muitos…
- Mas diz-me uma coisa… tu andaste a frequentar escultura? Mas esta exposição era de desenho?
- Naquela altura eu fazia escultura na escola, não tinha ateliê… e com matérias “para destruir” como o barro. Fazíamos os trabalhos e quando estavam finalizados, deitavam-se abaixo e começavam-se outros. Também houve alguns trabalhos em pedra, mas esses trabalhos desapareceram, foram roubados. Então, eu expus desenhos que eu já fazia em casa, e não na escola.
Maria troca desenhos por azeite virgem, com uma prima. Mas gostaria de trocar tudo por tudo, troca directa, eu dou-te o que faço e tu dás-me o que fazes. Falamos de utopias, acredita em coisas de acreditar. Sonhos, ideias de fraternidade. Guarda objectos quase panfletos: uma sagrada família travestida em família de talibans, uma mulher esventrada por uma torneira de pipa (“aborto”), entre muitos outros. Foi sempre irreverente, provocatória, de “má fama” por ser contestatária, directa, mulher sem rodeios nem conveniências sociais, livre, ó mulher bendita, que nunca as mãos te doam, digo eu que não vim aqui só para ouvir-te.
- Sempre fizeste desenho… mesmo frequentando escultura…
- Sempre… eu ia com papel e lápis para todo o lado, tinha cadernos pequeninos que cabiam na palma da mão…
- E, portanto, na segunda exposição apareceu o Alexandre O’Neill…
- Apareceu porque o Júlio Pomar também se interessava muito pelo meu trabalho e o levou ao meu apartamento, na Rua da Glória. O Alexandre O’Neill e o Vinicius de Moraes… Ainda me lembro do Vinicius com o frasco do whisky no bolso das calças… tínhamos posto os desenhos todos no chão e eles ficaram ali a olhar. Já não me lembro das conversas. Mas lembro-me que dias depois apareceu o Alexandre O’Neill já com o poema.
- Nesse poema ele usa um verbo novo, “Luzlinar”. Diz-me lá o que é isso de “Luzlinar”?
- Então… sem “luz” não se vê nada. E “linar” tanto pode ser delinear, desenhar, como pode vir da palavra Lino… Tudo junto: “Luzlinar”… é fazer linhas à luz…
- É um bonito poema, deves ter ficado muito sensibilizada na altura…
- Sim, fiquei. Ele já era um grande poeta e esse poema, na altura, foi publicado, julgo que no “Diário de Lisboa”. À noite, muitas vezes, comíamos na cantina da Universidade, e como havia sempre malta que comprava o jornal, houve um dia que alguém me veio mostrar.
- E como eram as pessoas da tua idade nesse tempo? Muito boémias? Essa comunidade de artistas com que tu andavas, o que é que eles faziam? Como passavam o tempo?
- Bom, nós bebíamos muito. E conversávamos muito. Fazíamos, às vezes, nos cafés, os desenhos dos surrealistas, os cadáveres esquisitos. Tanto os fazíamos com desenhos como com frases. Ainda tenho alguns guardados. Falava-se muito! Era uma época muito agitada…
- Vivia-se tudo muito intensamente, ou não?
- Sim. Lembro-me que nesses anos, em 67, creio eu, e ainda no Porto, houve uma excursão de alunos de Belas Artes a Paris para ver uma exposição retrospectiva da obra de Picasso… Houve muitos colegas meus que acabaram por não voltar. Ficaram por lá e, noutros casos, foram para outros lados. O José Emílio Calvário acho que foi para Leninegrado…
- Sim, mas houve uma altura em que os artistas fugiam, no fundo, de Portugal… ou porque pretendiam estudar ou para fugir à guerra colonial…
- No meu tempo fugiam para escapar da guerra colonial e onde se estabeleciam continuavam os seus estudos. Perdi o contacto com a maior parte deles…
- Mas como é que era esse tempo? Descreve-me um dia na época de 68/69 em Lisboa.
- Uma manifestação do 1º de Maio em Lisboa… havia grupos organizados que distribuíam panfletos cujo conteúdo dizia a hora e o local onde iam decorrer manifestações. Mas esses panfletos apenas serviam para enganar a polícia, porque a malta se encontrava noutro local e hora diferentes. Eu não fazia nada, apenas acompanhava o grupo. Mas lembro-me de um polícia a perseguir-me com uma espingarda apontada às minhas costas e de uma mulher que passava por ali gritar ao polícia «Não tens vergonha? Com a espingarda apontada às costas da rapariga… vai mas é cavar batatas!!». Lembro-me do medo que havia de se ser denunciado, por qualquer coisa… porque qualquer coisa servia…
- E tu tinhas consciência política, nessa altura?
- Eu tinha consciência política, mas não estava filiada
- E porque é que tu decidiste a certa altura ir para a Alemanha? Onde viveste, depois, 27 anos…
- Porque eu fiz o curso geral de escultura, com a excepção da cadeira de estética. Havia o professor Gusmão que chegava às aulas e utilizava um projector enquanto debitava a matéria. Havia colegas meus que escreviam tudo o que ele dizia… eu não percebia nada daquilo que ele dizia e o que é certo é que também não escrevia.
Espera aí que está ali uma vizinha à minha procura…
- Quem é?
- É uma vizinha.
Anda gente lá fora. Maria abre a porta, diz que está ocupada, que está a trabalhar. Volta à mesa, ao lugar do fumo. Temos tempo para o lento desfiar das palavras, para bebericar chá, para falarmos de um passado boémio, para o silêncio entre as frases. Depois levanta-se, desaparece por instantes. A casa cheia de livros, de esculturas, de desenhos, de cães e gatos. Sobre uma mesa cogumelos a secar, vieram da serra e são chamados pelos nomes. No armário, um disco de Patti Smith espera a sua hora. Volta, regressa ao fumo, ao fumo de histórias antigas, à juventude nunca perdida, à Alemanha onde viveu quase três décadas, ao que queria que o mundo fosse (uma enorme comunidade). Há brilho no seu olhar (luzlina, não é?), agora que vê melhor. Lembro-me de um dos dias a seguir à cirurgia: Sabes, tenho olhos novos! Aquela maneira, tão peculiar, de simplificar tudo, de falar de assuntos complicados com palavras simples, pão pão, queijo queijo. Que seja da Serra, por favor!
- Ainda te lembras do que estávamos a falar?
- Sim… Acabei por fazer exame de Estética, ainda me lembro da prova escrita, escrevi pouco. E na prova oral, o professor começou por dizer: «vamos falar da sua prova escrita» e eu levantei-me e disse: «não, isso é que não vamos». Alguns professores que assistiam, para além do Gusmão, eram meus professores de escultura, entre eles estava o Lagoa Henriques, disseram-me para não desistir porque ficava prejudicada. Mas eu saí e não acabei o curso por causa da cadeira de Estética.
Depois, houve alguém que se preocupou em me arranjar trabalho… falaram com o Calvett de Magalhães, que tinha uma escola na Ajuda e tinha um projecto piloto, convidava professores jovens para dar aulas livres aos alunos e então trabalhei aí um ano. Fazia desenho e linóleo com os miúdos, na maior parte das vezes ao ar livre.
- Depois foste para a Alemanha.
- Fui para a Alemanha porque na escola ganhava dinheiro, mas acabava por não ter tempo para desenhar. Decidi ir para a Alemanha porque tentei concorrer a bolsas de estudo para vários países… fiquei suplente numa bolsa para Milão, mas quem estava em primeiro lugar era uma colega que tinha as cadeiras todas concluídas, e como ela não desistiu, eu não tive hipótese… tentei outros países, mas ao fim de três meses teria sempre que regressar. Depois conheci um alemão que estava a estudar português em Lisboa e que me tinha falado de um grupo de amigos que conheciam galeristas e que se interessavam por arte e por música. Eu não queria ficar em Portugal, por isso meti-me no comboio e fui para Hamburgo.
- Assim… à aventura?
- Sim. Levei uma pasta com desenhos…Tinha o contacto do tal alemão que eu tinha conhecido em Lisboa e tinha o endereço de um chileno que também lá estudava.
- Assim, de repente! Então, já não vivias com o Pomar…
- O Pomar tinha zarpado para a Holanda por causa da guerra colonial.
- Voltando um bocadinho atrás… Tu sempre foste rebelde, muito inconformada, porque essa história de te levantares a meio de um exame e dizer «Não falo» é de uma grande rebeldia…
- Eu tinha muito má fama, tanto em Lisboa como no Porto.
- Tinhas fama de má?
- Nos modelos, na escola, tínhamos a Maria, bastava fazer uns volumes e já estava feita a Maria, uma barriga, umas mamas e um rabo. Havia também o Sr. António que era muito velho, mas era um modelo muito lindo… ainda tenho alguns desenhos dessa época… Bem, esses dois eram os únicos modelos da escola. Então eu arranjei o contacto de uma prostituta e ia buscá-la todos os dias de manhã ao quarto dela. Às vezes, desenhava-a enquanto dormia e depois ia com ela para a escola, onde ela servia de modelo. Todos deliravam… Cheguei a arranjar para modelo um miúdo da Ribeira, foi lá a Polícia e tudo à escola, os pais da criança diziam que eu tinha desviado o miúdo! Eu levava-a para as aulas, para desenhar, com o consentimento do professor… toda a gente ficava encantada e toda a gente me conhecia por eu me meter sempre nestas coisas… ou seja: procurar o que se quer e não ficar com aquilo que aparece.
- Não se conformar com as coisas! Mas falemos de Hamburgo. Tu ias para outra escola?
- Fui para outra escola em Hamburgo porque eu já sabia que só lá poderia ficar se fosse turista ou estudante.
- E que escola é essa?
- Escola Superior de Belas Artes de Hamburgo.
- Mas… voltaste ao início?
- Não é voltar ao início, porque na Alemanha era tudo diferente. Para já, o choque mais bonito foi encontrar muita gente com quem eu me identificava e…
- Em comparação com o meio artístico e académico de Lisboa, Hamburgo era uma outra coisa.
- Era uma outra coisa que me dizia muito mais! Se calhar é também por isso que eu me esqueci de exposições e de outras coisas aqui em Portugal… Mas estou a lembrar-me de uma exposição, agora, na Escola de Belas Artes do Porto, vi uma exposição de Nadir Afonso, e foi a primeira vez que vi trabalhos dele.
- Se calhar, em comparação com o meio artístico de uma cidade como Hamburgo, Lisboa e Porto eram muito conservadores.
- Eram.
- Então foste para a tal escola…
- Fui para essa escola. Fui lá mostrar a minha pasta dos desenhos. E… admitiram-me por um semestre, à experiência. No final desse semestre havia um júri ao qual tinha que me apresentar para ser avaliada. E eles decidiam se continuava ou não.
Depois desse primeiro semestre, consegui uma bolsa de estudo da cidade de Hamburgo. Andei lá o máximo de tempo que podia andar, 14 semestres. Depois, podia continuar a estudar mas tinha que mudar de curso.
- E tu mudaste? Não?
- Não. Ao fim de 14 semestres já estava farta.
- E a cidade?
- Era e é linda! Na escola, naquela altura, já havia bastantes estrangeiros.
- E nessa escola respeitavam a tua escultura e os teus desenhos…
- Gostavam muito dos meus desenhos. E houve um professor o Rückriem que é escultor, que gostava muito da forma como eu trabalhava com o barro. O ensino em Hamburgo era muito diferente do português, que era clássico. Na Alemanha a arte é mais conceptual. E esse Rückriem dividiu o grupo dos estudantes
- Depois acabaste por ficar ali 27 anos da tua vida…
- Sim. Depois dos 14 semestres, 7 anos, na escola de artes, se não mudasse de curso tinha que vir embora. Foi nessa altura que casei com um alemão, com quem vivia. Com o papel comprovativo do casamento já podia ficar na Alemanha por tempo ilimitado.
- Foi por isso que casaste?
- Foi por isso que casei. Tanto em Lisboa, para arrendar uma casa, como em Hamburgo para lá ficar, o papel foi exigido.
- Está bem! E depois ficaste lá…
- Fiquei lá. Julgo que foi em 1977 que eu acabei o curso de Belas Artes e arranjei um ateliê fora de casa…
- Mas vivias de quê?
- Eu assim que fui para a Alemanha, em 1970, comecei a trabalhar com o grupo de amigos: vendíamos apostas para as corridas de cavalos…
- O quê???
- Por isso aprendi os números e o dinheiro antes mesmo de aprender o alemão. Porque eu vendia uma aposta e tinha que saber receber o dinheiro e dar o troco. E perceber que número de cavalo é que queriam… E então esse dinheiro dava para viver, pagava o aluguer do quarto. Ainda em 70, houve uma Agência de Seguros que colocou um casarão enorme à disposição dos estudantes. Nessa altura tinha começado uma onda de ocupação de casas abandonadas ou vazias na cidade. E, por outro lado, a Polícia encarregava-se de as deixar vazias novamente. Essa casa de que falei foi das primeiras a ser cedida aos estudantes por um valor de renda simbólico. Eu pertencia ao grupo que lá vivia. Houve uma noite em que acordámos com o som de pedras nas janelas. Era o grupo de uma casa ocupada à força que tinha sido despejado e andava à procura de alojamento noutra.
Muitas vezes, caminhar por veredas, saltar de pedra em pedra, ver mais longe, mais longe, voltar ao essencial. À machadada, com os dentes ou com as unhas, deitar fora o que está a mais. Revelar o coração (alguns chamam-lhe alma) da madeira. Alterar, manipular e logo encontrar formas adormecidas que esperavam há anos as mãos da escultora, o toque, o corte. Erguidas, ali estão elas. Corpos erectos de madeira. E entre elas o vazio, também ele esculpido por Maria, a das mãos fortes.
Mas também puxar pelas linhas, desenhar ideias antes de serem ideias, usar pincéis de pelo de bicho esquisito. Os desenhos colados à parede lembram caligrafias em língua que desconheço, corpos que é preciso completar ou adivinhar, a brancura assaltada, manchas significantes. E é agora, precisamente, que “Branca”, a cadela, irrompe pela conversa dentro.
- Estavas a dizer que vivias das apostas, no início… e que depois arranjaste um ateliê…
- Enquanto estive na escola de Belas Artes tinha a Bolsa de Estudo da cidade, que naquela altura eram 400 marcos. E depois tinha o que ganhava nas corridas dos cavalos e nas férias trabalhava. Na Universidade havia uma secretaria onde os estudantes podiam ir procurar trabalho.
- Sim, mas isso é no tempo em que andavas a estudar…
- Quando deixei de estudar, já estava a começar a vender coisas.
- Então houve uma altura em que passaste a viver do que vendias, do teu trabalho…
- A partir dos anos 80.
- Eu julgo que nas primeiras exposições aparecias por seres portuguesa e depois há uma outra fase em que o que importa verdadeiramente é o teu trabalho.
- Mas, sabes que isso é importante! Porque eu lembro-me de às vezes aparecerem jornalistas com a pergunta: «Se a arte em Portugal é diferente ou se o meu trabalho tem algo a ver com Portugal?». Eu recusei sempre essas coisas todas. Eu acho que a arte é universal.
- Tu perdeste a ligação a Portugal e ao meio artístico português?
Completamente…
- E tens consciência que agora, para Museus e Galerias, és uma perfeita desconhecida? Apesar de teres um percurso reconhecido noutros lados.
Sim. Há muitos artistas e os conceitos de arte também mudaram muito. E depois em Portugal, mesmo com a arte, acontecem coisas que noutros países já aconteceram há uns anos antes…
- Estás a dizer que a Portugal chega tudo atrasado?
- É, é. Por exemplo, a intervenção na paisagem, a performance… Isso são coisas que eu acho que já fazem parte da história e que aqui as pessoas continuam a fazer como se fosse uma ideia muito fresca… Não tenho nada contra isso… Eu continuo a desenhar como o faziam pessoas há 500 anos… desenho porque gosto.
- Não faz sentido é apresentar isso como uma grande novidade…
- Pois… como novidade, não! E… houve uma altura que em Hamburgo se colocava a questão de por que é que havia mais mulheres do que homens a fazer performance. Questionavam se o faziam pela condição de ser mulher, ou por outro motivo. Eu acho que isso aqui ainda não foi questionado.
- Falas insistentemente do trabalho das mulheres… tu és feminista?
- Não sei se o sou ou não. Sei que sou mulher e que é muito difícil ser mulher e artista. Porque o sexo feminino nunca é visto com a mesma seriedade que o masculino… em Portugal.
- Em Portugal? E isso deve-se a quê?
Deve-se ao atraso do país, deve-se à Igreja, deve-se à falta de aprendizagem da arte… do teatro, da música, tudo. Deve-se à política e aos políticos. Ainda ontem… na casa dos meus irmãos estava a televisão ligada e passava o debate na Assembleia da República. Os políticos tinham casacos com cores muito estranhas e tinham na mesma a gravata e em certos casos gravatas horríveis… Que sentido estético têm estas pessoas, que estão para ali a mandar bocas numa figura daquelas? Olha, hoje de manhã achei extraordinário um programa na rádio sobre uma acção do Museu Berardo, a que resolveram chamar “Não te posso ver nem pintado”. Eu acho extraordinário um tema assim…
- A propósito, quem é que tu não querias ver nem pintado?
- Todos os que quisessem exercer poder sobre nós… Não têm esse direito…
- Todos, sem excepção? Tu és uma mulher totalmente livre…
- Quero ser… não sou. A liberdade está sempre condicionada pelas outras pessoas… Ontem à noite telefonaram-me para me convidar para um jantar de um bolseiro inglês que está
- Mas isso verifica-se muito
- Eu programo o meu trabalho todo em função dos compromissos que tenho. E dá-me a impressão que muitas pessoas não pensam nisso. E depois fico à espera…
- Detestas, no fundo, que as pessoas não cumpram o que livremente estabeleceram… Mas esse tipo de organização, achas que é algo que aprendeste na Alemanha, ou já eras, assim, muito organizada?
- Eu acho que deve ter sido na Alemanha. Mas isso está tão dentro de mim que já nem sei… quando eu fui para a Alemanha eu era muito jovem e … muito do que aprendi foi lá.
- 27 anos a trabalhar na Alemanha e estavas perfeitamente adaptada… com os teus amigos, com o teu trabalho, com a tua arte… conheceste com certeza pessoas fascinantes…
- Sim. Pessoas do teatro, da música e do cinema.
- Conheceste, nessa altura, um homem que foi acusado, em Portugal, de matar o patrão…
- Sim, o Zé Diogo, que era alentejano…
- Aqui era considerado um assassino.
- Só pela família do latifundiário… Ele era tractorista e tinha sido despedido, tinha mulher e vários filhos… Depois de ter tentado arranjar emprego em vários sítios, foi a casa do tal latifundiário e perguntou-lhe se lhe dava outra vez trabalho. O ex-patrão disse-lhe para ele tirar o boné… O Zé Diogo ia tão preocupado com o problema do trabalho que nem se lembrou de tirar o boné. E acabou por ser maltratado. Foi então que ele tirou o canivete do bolso e espetou-o na barriga do latifundiário. Depois foi à polícia contar o que tinha acontecido. E… tanto quanto me lembro, ainda houve quem concordasse com o facto dele se ter revoltado com o patrão. Isto foi em 1975.
- Mas o patrão acabou por morrer, não foi?
- Sim, porque não se quis deixar tratar pelos médicos que estavam no Hospital, porque eram jovens. Apanhou uma infecção e morreu dessa infecção. O Zé Diogo foi acusado e julgado pelo 1º Tribunal Popular e foi posto
- Mas ele não tinha casa?
- Estava em casa de um parente, era onde dormia. Mas durante o dia não tinha para onde ir e para não ficar sozinho ia para o meu ateliê. Tenho uns papéis que ele escreveu e que me pediu para guardar. Sobre a vida dele e sobre a ida dele a Berlim Oriental. Quando ele lá chegou, meteram-no outra vez no comboio de regresso. E disseram-lhe que voltasse mas com o nome e o contacto das pessoas que o tinham ajudado. E ele depois não voltou. E foi para a Suécia, onde um grupo de pessoas o ajudou, e mais tarde foi para Moçambique. Foi aí que eu perdi o contacto com ele. Tenho guardado uns papéis dele. São coisas que escreveu sobre a situação que estava a viver.
- Nunca o desenhaste?
- Não. Cheguei foi a traduzir esses textos para tentarmos obter apoio da Amnistia Internacional. Responderam-nos que estavam a par do sucedido mas que não se tratava de um caso em que pudessem intervir.
Pois, porque não era por razões políticas, na opinião da Amnistia…
- Pois. Não era uma perseguição política.
- Mas este episódio ajuda a revelar o teu carácter, que te leva a abrir assim a casa a toda a gente, não é?
- Quando são pessoas que eu gosto ou que eu ache que possa ajudar…
Fuma muito. Demora-se no gesto de fumar. E de beber. Chá de ervas de manhã, vinho tinto ao entardecer. Vagarosamente, deixando o tempo esfumar-se, lenta degustação do tempo. Porque aqui há tempo para ter tempo. As letras atadas ao portão são transparentes: temos tempo. Tempo para organizar o tempo: esculpir os troncos que vêm da serra, desafiar o vento com gestos precisos, dança de pincéis e tinta de negra existência.
- Nessa altura, no teu ateliê em Hamburgo tinhas modelos?
- Sim. Nos anos 80, pouco antes de regressar a Portugal. Tinha várias vezes por dia modelos no ateliê. Um deles gostava muito de posar e do meu trabalho. Uma vez chegou a propor-me que lhe pagasse com uma escultura em vez de dinheiro. Então ele vinha posar para amortizar a escultura.
- Era uma troca de serviços … E isso tu continuas a fazer. Dão-te azeite e tu dás, em troca, desenhos…
- Eu acho que era muito importante acabar com o dinheiro… e que as pessoas deviam trocar aquilo que fazem com outras. Eu já o faço. Mas é insuficiente porque ainda tenho que pagar a luz, o gás, a electricidade, o tabaco…
- Pois… a esses vendedores não podes pagar com desenhos ou com esculturas.
- Mas é curioso que a Doris agora quando cá esteve disse-me que isto está a acontecer de uma forma organizada na Alemanha. Principalmente em Berlim.
- Troca directa?
- Troca directa… Há uma filha dela que está envolvida nisso. Por exemplo, reconstroem um edifício em ruínas que compram por pouco dinheiro e vão trabalhar todos juntos. Têm um lavrador que dá batatas para todos e que empresta o tractor, se o tractor avaria… no grupo também há um mecânico… Portanto há mesmo grupos que se estão a organizar no sentido de viver e ter as coisas sem usar dinheiro. O que eu acho que é extraordinário.
- Em relação a estas últimas coisas que me contaste… o episódio do Zé Diogo e isso da troca directa leva-me a pensar que tu, no fundo, és uma pessoa que acredita em utopias.
- Não. Eu sou uma pessoa que acredita nas outras pessoas. Às vezes fico perturbada quando tenho de deixar de acreditar em alguém…
- E achas que as pessoas têm a capacidade, por exemplo, de abolir o dinheiro?
- Eu acho que poucas pessoas se debruçam sobre essa possibilidade.
- Mas que Utopia é que tu gostarias que se concretizasse rapidamente?
- Era viver
- Regressas a Portugal, 27 anos depois. Porquê? Porque estavas a envelhecer?
- Sim. Um factor é a idade. Fazes as coisas mais devagar e precisas de mais tempo e para guardar os trabalhos todos que eu tinha, precisava de espaço e de pagar uma renda mensal muito alta. Isto, para além dos problemas conjugais. Acho que foi mais o medo de não conseguir ter um espaço para colocar todas as obras que produzi.
- Mas isso porque tu tens uma “obsessão” de guardar tudo… Tu guardas tudo não é?
- Não. Ando sempre a deitar fora. Mas também guardo muitas obras, porque me dizem qualquer coisa…
- Tu tens os teus trabalhos todos desde miúda ou não?
- Não. Os trabalhos mais antigos que tenho são de 1963. E muito poucos porque vou deitando fora.
- Tu tens gavetas e gavetas de coisas tuas e dos outros…
- Sim. As dos outros ainda as trato com mais cuidado.
- Guardas algum “tesouro”, obras muito importantes?
- Por exemplo, o original daquele offset que está na exposição. Esse está tão guardado que já nem sei onde o meti! Mas sei que está guardado.
- Porque tem um significado especial para ti…
- Porque foi um desenho que quando o vi, fiquei fascinada… e… uma escultura que está ali, aquela fininha…
- Mas a ideia que eu tenho é que tu guardas, de forma organizada, tudo.
- Tudo não! Por exemplo, os desenhos de crianças e de pessoas que esporadicamente fizeram um desenho… às vezes volto a ver e alguns deles deito-os fora. Os do pai, estão todos guardados.
- E como é que foi isso? Como é que tu puseste o teu pai a desenhar?
- Eu ainda estava no Porto e… como é que hei de dizer?... Bom… estava numa situação pouco saudável e vim cá passar um mês ou dois ao Feital, para comer melhor, dormir melhor e beber menos… E eu estava a desenhar, em casa, no Feital, e o meu pai apareceu por lá e pediu-me uma folha de papel. Eu dei-lhe a folha e ele andou à volta da mesa a desenhar. Fez o desenho de um carro de bois com as vacas vistas de lado e em cima do carro um tonel e um funil, com o vinho a cair para dentro do funil para o tonel. Ele fez o desenho com cores e depois riu-se muito, e a partir daí nunca mais parou de desenhar. Começou a desenhar aos 60 anos!
- E talvez influenciado por ti…
- Completamente. Tenho também dois desenhos da mãe dele, da minha avó, muito curiosos… ela tratava-me por menina e dizia Sabe que já peguei algumas vezes numa caneta, mas era para a dar a alguém que ma pedia, mas nunca para a usar… Acho isso extraordinário… E depois vinha o pai ver os desenhos dela e perguntava-lhe Então que é isso? E ela respondia Isto é um galo e uma galinha. E, na mesma folha, desenhou ele também um galo e uma galinha dizendo É assim. Aconteceu o mesmo com o desenho de um porco. Isto são desenhos que eu acho que devem ser guardados.
- Ou seja, a filha motivou o pai a desenhar…
- Sim. E ele gostava, porque acho que desenhou até morrer. Há um desenho ou outro que é ele na mesa de operações e os médicos com batas e máscaras à volta dele.
- Tu também fizeste, a certa altura, um filme sobre o teu pai. Chama-se “Maria e o pai”.
- O filme é de 1982. Mas antes, em 1981 houve pela primeira vez em Hamburgo bolsas para artistas. Eu tinha pedido uma bolsa para uma viagem. Estive cá no Feital e tinha a ideia de fazer retratos de pessoas da aldeia, pintar. Mas, quando cá cheguei vi que era muito difícil porque ainda fiz alguns… mas… Então nasceu a ideia de fazer o filme e comecei essa ideia com uma amiga alemã que trabalhava em guiões para filmes e tinha alguma experiência em cinema, que eu não tinha. Entregámos o projecto e recebemos o apoio financeiro da cidade de Hamburgo para fazer o filme. Entretanto ela desistiu e eu empenhei-me, porque queria mesmo fazer esse trabalho. Contactei pessoas e fez-se o filme.
- O filme é…
- Autobiográfico e documentário.
- Sim, mas também é um filme poético sobre a ruralidade e sobre a memória do sítio de onde partiste… onde nasceste. Visto agora é um documento muito importante do ponto de vista etnográfico e antropológico. E há lá uma cena marcante que é a luta dos lacraus, rodeados de fogo, não é? O que é que simboliza essa luta?
- Essa luta tem uma determinada importância para mim… eu sempre ouvi dizer às pessoas que se os lacraus se vissem num beco sem saída, acabavam por matar-se a si próprios. Resolvi colocar isso no filme.
- Por outro lado, anos e anos depois, tu também tens uma cena noutro filme, que te é dedicado pela Margarida Gil, de um louva-a-deus fêmea a comer um louva-a-deus macho.
- Isso foi uma situação de acaso. Porque eu também nunca tinha visto um louva-a-deus de asas abertas e com aquelas cores… ouvia dizer que eram comidos pela fêmea… e vieram--me chamar porque entretanto já estavam a filmar essa cena ali fora. E eu fui, sem pensar, buscar um outro louva-a-deus que eu sabia que estava por aqui numas plantas. Coloquei-o ao lado do outro e foi quando isso aconteceu.
- Um louva-a-deus fêmea a comer um louva-a-deus macho?
- Eu acho que isso é mais científico. O que eu sei é que eu ficava com os pelos no ar a ver aquelas imagens. Agora já não… mas na altura… Porque o macho… que tinha as asas abertas, fazia um movimento tão dramático… aquilo mais parecia um ballet. Uma coisa extraordinária.
- Tu tens bichinhos espalhados por toda a casa… escaravelhos, libélulas, gafanhotos, e outros bichos, para quê? É para os desenhares?
- Sim e não. Se calhar nem sei para quê. O que sei é que isso foi uma das coisas em que fui influenciada pelo António Quadros. Essas coisas que “não prestam para nada”…
Ele dava aulas de pintura e um dos primeiros trabalhos que fiz foi uma caveira de um bicho qualquer. Ele explicava que aquilo era importante para desenhar ou para pintar porque, no caso do osso, há tantas tonalidades de uma mesma cor…
- Trazes muitas coisas, então, para casa… E depois desenhas…
- Sim. Ainda tenho ali a caixinha com vários bichos…
- Em Hamburgo era impossível tu dedicares-te a estes desenhos, ou não?
- Também o fazia. Em Hamburgo cheguei a ter codornizes vivas no ateliê. Tive umas pêgas que andavam à solta no ateliê. Os pássaros da família dos corvos.
Guarda tudo. Cartas (a última do amigo e escritor Cristian Geissler continua à vista), desenhos dos seus amigos, obras de crianças, as figuras que o pai pintou e muitos, tantos, desenhos seus. Está tudo organizado, no sítio certo, na antiga vacaria, agora, ateliê espaçoso. Está ali, desenha, esculpe, trata da pequena horta de cheiros, abre a porta a quem vem de perto e de longe, hoje, ou por alturas de simpósio. Avessa a burocracias e ao beija--mão, tem dificuldade em lidar com o mundo dos nababos e bajuladores, ou seja, com o mundo que fica para lá do seu portão.
- Depois, a certa altura, decidiste organizar aqui no Feital, um simpósio de arte.
- Bem, isso teve início quando eu própria comecei a participar
- Portanto, tiveste em conta a experiência da tua participação noutros simpósios para organizar o do Feital?
- Sim. O primeiro foi com um grupo de checos e alemães… Viemos juntos para o Feital e trabalhámos durante duas semanas. Não tínhamos um sítio para reunir. Trabalhávamos a maior parte do tempo no exterior. A exposição acabou por ser no edifício da Escola e no exterior. Este simpósio foi apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Quando regressei a Hamburgo pensei numa forma mais profissional de organizar o simpósio, precisávamos de um espaço onde o grupo de trabalho se pudesse reunir e guardar os trabalhos… E isso acabou por acontecer, uma vez que eu decidi regressar a Portugal.
Tive que criar um sítio e construí um ateliê na antiga vacaria.O simpósio vai na décima edição.
- Passaram por aqui já dezenas de artistas… portugueses, belgas…
- Franceses, checos, holandeses, alemães… noruegueses…
- E a proposta é criar arte, inspirada na Natureza.
- Sim. Mas o que me interessa é juntar pessoas para quem o desenho é tão importante como para mim. O objectivo é criar, todo o tempo é para o trabalho, os artistas não têm que pensar noutra coisa senão no trabalho. A mim sensibiliza-me sobretudo a forma como os artistas reagem quando aqui ficam e sentem que este é um lugar onde podem trabalhar.
- A obra não te importa?
- A obra importa, em parte é pela obra que são escolhidos.
- Tem sido muito difícil organizar o simpósio? Portugal continua, de alguma forma, a não acarinhar este tipo de projectos?
- Uma vez a Drª Ana Pires, que estava em Coimbra na Delegação Regional da Cultura, veio ao Feital e disse-me Você veio muito cedo para aqui. Isto é quase como enterrar a criança, não é? Mas ela deu apoio…
- E o que é que ela queria dizer com isso?
- Que eu cheguei cedo demais aqui com este projecto.
- Porquê?
- Pois… porque parece que isto é um país que não está preparado para apoiar coisas destas. Foi nesse sentido. Acho que foi isso o que ela quis dizer. Bem… e ela decidiu apoiar e fizemos o catálogo de 2001 e a partir daí não fizemos mais…
- Os outros dois catálogos estão por editar por falta de dinheiro?
- Exacto.
- Há uma espécie de humilhação quando te obrigam a pedir apoio… de mão estendida…
- É o caso concreto da Câmara de Trancoso… em que o presidente diz que apoia, mas quando chega a altura de ir receber o dinheiro à Secretaria há sempre impedimentos. Ou não o podem dar todo de uma vez, ou é adiado o pagamento e isso é uma humilhação e uma falta de respeito pelo meu trabalho.
- Que perturba totalmente…
- Perturba, desgasta… porque eu invisto o meu tempo e muita energia numa coisa que é para todos. O ideal era a Câmara de Trancoso estabelecer um montante anual para as actividades da Luzlinar e para os simpósios.
- No fundo, a região ou mesmo o país não percebe como o que fazes é importante para a região.
- Cada vez vêm mais pessoas… a maior parte dos artistas que participaram já voltou para me visitar. E falam lá fora… Isto torna-se conhecido, faz parte do curriculum deles.
Sabes que é curioso e estranho para mim certas coisas que estão a acontecer. Há uns projectos de intercâmbio de artistas de vários países… Isto é organizado pela parte portuguesa de Pinhel e Trancoso, que não entendem nada de arte, e que estão a querer enviar artistas para o estrangeiro, mas o projecto foi por água abaixo. Tinham-me convidado a participar com eles nesse projecto… mas quando lhes perguntei o que é que pagavam, responderam que tinham 500 euros para dois artistas irem durante seis semanas para a Bretanha trabalhar. Eu perguntei-lhes se eles, por esse valor, iriam para qualquer sítio trabalhar durante seis semanas.
- No fundo, o que achas é que os políticos ou quem decide nesta área não sabem nada de arte… Achas que isso é um problema geral, ou não?
- Eu acho que um problema geral. Mas eles têm acesso aos projectos que são apoiados por Bruxelas. Eu não sei quem é que está em Bruxelas para decidir as coisas, o que sei é que tudo devia ser controlado de outra maneira. Tanto em Portugal como na Alemanha não está a ser feito nada pelos artistas.
- Avancemos. Como é que caracterizarias a tua obra? Se tivesses que apresentar a tua obra, o que é dirias? Não quero que a expliques. Por exemplo, que tipo de escultura é esta? Às vezes, as pessoas olham para as tuas esculturas, especialmente para aquelas mais verticais, e acham que aquilo foi apanhado, assim, na natureza, e que tu só deves ter lixado o tronco no final?!!
- Mas isso é bom. Isso é bom porque faz parte do meu conceito de trabalho: quando os trabalhos estão finalizados dar a impressão de que a peça esteve sempre assim…
- Hum!
- Portanto… consegui! O meu projecto é que as minhas formas, depois de concluídas, dêem a impressão que tiveram sempre essa forma, na Natureza. O problema das pessoas não entenderem, é porque não estão habituadas a ver… e não percebem nada de arte.
- E os teus desenhos? Aqueles com os traços vigorosos…
- É a mesma coisa. São desenhos que têm que ser feitos muito rapidamente, porque a velocidade do pincel é importante para mim, e as pessoas dizem Isso também eu fazia Pensam assim, porque lhes parece muito fácil. E porque nunca tentaram… e deviam tentar logo. Isso já vem de há muitos anos, antes de ir para Alemanha, numa altura em que eu fazia tudo só com uma linha, e também encontrei pessoas na Alemanha que me diziam Isso também eu faço. E algumas tentaram e só depois é que chegaram à conclusão que não, que nem a copiar pelo desenho feito conseguiam… porque é muito difícil fazer uma coisa de tal maneira que pareça fácil.
- Eu posso dizer do teu trabalho que tu procuras aquilo que é essencial?
- Para mim. Sim.
- Tu procuras uma certa simplicidade?
- Completa! Simplicidade… Uma clareza, com o mínimo de linhas para fazer a forma que pretendo.
- E foste apurando esta tua linguagem…
- É tirar tudo o que não é necessário. Claro que sou eu que identifico e que sei o que é ou não necessário para cada um dos casos.
- Tirar a madeira que não é necessária, que está a mais, como se dentro do tronco já lá estivesse aquela escultura, aquela forma…
- É. Isso já disseram muitos escultores, não é? A escultura está lá dentro.
- E a questão do vazio? Ultimamente ouço-te muitas vezes falar do vazio. Tu preenches o vazio ou o vazio é que é a escultura…
- A forma do vazio! Isso também há na música… o silêncio, não é? O vazio na escultura também é importante. Geralmente é o espaço entre duas coisas. E pode ter uma leitura que é tão importante como a outra, o cheio. Tu para veres uma escultura tens que andar à volta dela. Também existe vazio à volta dela… a obra é isso tudo.
- Em Portugal continua a não haver uma educação artística generalizada.
- Não há porque eu acho que isso – e voltando agora à utopia – modificava a sociedade. Num sítio onde as pessoas sentissem a necessidade de viver com arte ou de criar, elas próprias, arte… Essas pessoas passariam a ter outras necessidades. Se calhar precisavam de mais… ou de menos, ou do essencial como eu. A pessoa tem que se perguntar a si própria o que é que quer ou o que é que precisa… ou então o que não precisa.
- O que eu acho é que tu nas esculturas e nos desenhos és minimalista …
- Mas é sempre a partir de formas concretas. Porque eu trabalho muito a ver e a perceber o que vejo. É como se isso fosse uma razão para trabalhar… E, se o resultado no final parece abstracto, é o resultado do trabalho anterior e daquilo que nesse momento me interessa: o cheio ou o vazio.
- De vez em quando tu fazes objectos que são de uma intervenção social e política terríveis, como por exemplo aquela família… como é que se chamava? …
- Taliban!
- Que no início era…
- A Sagrada Família. Mas também fiz outros, o Aborto, a Nossa Senhora e o Espírito Santo…
- Todas elas são muito provocatórias, têm uma dimensão política muito importante. São menos interessantes como objectos estéticos, mas ganham uma outra dimensão…
- Objectos estéticos? Está bem. Mas, a arte não tem que ser bonita, porque não vai enfeitar nada. A arte é uma coisa que se necessita. Como beber e comer. Para contemplar. Eu às vezes sinto-me provocada por determinadas coisas que vejo e apetece-me mexer nelas…
- Mas nestes é que se vê a maneira como tu encaras a sociedade…
- Acho que sim, mas são… reacções minhas a coisas da sociedade…
- Nestes, porque no desenho e na escultura não se nota.
- Não, porque nesse caso seria uma ilustração e eu acho que uma coisa quando é ilustrativa não tem que ser arte.
- Não é necessariamente arte. Nestes objectos – que não são poucos – é que tu interpelas a sociedade em que vives, não é? Nestes é que se notam posições políticas muito claras.
- Acho que sim. São protestos, claro!
- Também sabes que tens uma obsessão pela Igreja Católica…
- Tenho. A Igreja Católica, principalmente nas aldeias, mantém as pessoas na ignorância e contribui para essa ignorância metendo-lhes medo. Eu acho isso absolutamente deplorável. Para mim é mais do que evidente que a Igreja Católica mantém as pessoas no atraso cultural.
- Foste desenvolvendo ao longo dos anos contactos com muitos artistas que admiras e com quem partilhas coisas e experiências. Em relação ao panorama internacional, de quem gostas mesmo?
- É como na música… é sempre difícil escolher um, não é? Por exemplo o Joseph Beuys. Gosto muito de várias coisas dele, mas também é preciso saber o que ele disse e o que ele escreveu… Ele tem desenhos lindos, não são só os projectos filosóficos, mas também se interessava muito pela parte social e pela terra, não é? A plantação de cinco mil carvalhos… em Hamburgo recusaram-se e depois foram plantados em Kassel.
- Tiveste referências? Houve alguém que quisesses “imitar”, “seguir”, “prosseguir”?
- Imitar não. Mas já me têm dito que notam muita influência no meu trabalho do Brancusi. Eu vi uma retrospectiva dele em Paris... eu já conhecia o trabalho dele mas ver ao vivo e estar ali foi diferente. Ele tem uma relação forte com a Natureza, tal como eu tenho. Também gosto muito do Calder, dos mobiles, dos immobiles.
- E se eu te pedisse uma opinião sobre a arte portuguesa do momento? Por exemplo… Paula Rego?
- Paula Rego para mim é ilustrativa, acho que o trabalho que faz, faz muito bem, mas eu não gosto. E não gosto porque ela conta histórias através das figuras e da cor.
Júlio Pomar?
- Gosto muito de alguns desenhos dele, porque também tive uma relação muito próxima com ele e com várias fases da sua pintura e acho interessante como ele constrói e desconstrói os retratos e aquela bicharada toda que ele faz… os tigres, os porcos… Admiro-o muito.
- E do José Guimarães?
- Do Guimarães não gosto. Ele anda muito atrás do que é vendável e depenica em muitos lados e depois essas coisas vêem-se. Reconheço-o por aquelas cores todas e por aquela mistura toda, isso é ele. Mas, não é um tipo de trabalho que me fascine…
- Eu podia continuar a falar, do Cutileiro, do Resende...
- O Cutileiro, eu acho que ele faz um trabalho muito decorativo, que as pessoas usam para decorar a sala ou o salão. O Resende… gosto das aguarelas com umas cores muito suaves, também gosto das pinturas. Tenho admiração por ele. Quando andava na Escola do Porto – ele nunca foi meu professor – lembro-me que ele tinha umas pinturas muito escuras e então as aguarelas foram para mim quase uma alegria quando as vi.
Mas gosto muito do Ângelo de Sousa. Por exemplo, do Chafes não gosto muito, até porque as coisas que tenho visto sobre ele… acho-o muito superficial… não vejo consequência no trabalho dele.
- A Natureza e a ruralidade influenciam de alguma forma o teu trabalho?
- Influenciam. Influenciam a luz e as pedras. É curioso que eu tenho uma tendência para as formas redondas e eu acho que são sempre as formas que me prendem quando eu vou por aí fora… por serem mais orgânicas… não sei. Eu gosto muito das formas redondas.
Eu procuro viver com a Natureza, as esculturas que eu faço também são as pedras que eu encontro e vê-las já é por si um processo de aprendizagem. São esculturas da Natureza.
Nos primeiros anos andei a tirar a terra que tapava as pedras para ver a sua forma. E talvez seja importante continuar a fazer isso para as pessoas darem conta…
- E o teres tempo? Baptizaste este ateliê como “Temos Tempo”…
- É termos tempo para o nosso trabalho, é fazermos as coisas com tempo. Ter o tempo todo que é preciso para as fazer. Isso significa, às vezes, não ter tempo para outras coisas… Mas são opções.
- Uma vez, em Coimbra, fizeste uma exposição de escultura para cegos… Como é que foi essa experiência de ver as pessoas que não vêem relacionar-se, ou a verem, no fundo, as tuas esculturas?
- O fascínio que eles sentiam quando apalpavam uma forma que reconheciam… Acho que eles sentiam uma grande necessidade de reconhecer a forma. Para apalparem um nariz, uns olhos, uns seios, um braço… É outra vez o problema da Cultura. Uma forma pode ser uma novidade ou uma coisa tão agradável de ver ou de apalpar… sendo uma forma que não tem um símbolo na nossa memória e que se descobre no momento de a apalpar, de a ver. Senti isso. Por outro lado, foi uma experiência interessante pela forma como eles eram conduzidos pelo espaço, e como reagiam… A escultura não tem frente e verso, a escultura vê-se de todos os lados, apalpa-se… eles apalpavam e reapalpavam tudo.
- Que relação é que tu tens com a Guarda?
- Bom, eu conheci a Guarda através de ti e das pessoas que gostam de mim e de quem eu gosto. Porque nos primeiros anos eu perdia-me ao entrar na Guarda. Agora gosto e a parte que me interessa é a que conheço. É o centro. Foram os anos com o Teatro Aquilo, com o Núcleo de Animação Cultural e agora o TMG, as doentes do Bento Menni… Portanto, a minha relação com a Guarda é uma relação com as pessoas e por isso ou se tem ou não se tem.