
António Telmo, filósofo
Pensar o irracional
António Telmo Carvalho Vitorino nasceu em Almeida, no distrito da Guarda, “numa casa da rua do Convento, no centro do hexagrama formado pelas muralhas que cercam a vila”, no dia 2 de Maio de 1927, “pelas duas horas da tarde”. Precisamente na altura em que “o Leão aparecia no horizonte e o Sol erguia-se alto no Touro”.
Viveu em Portugal 64 anos e os restantes em Angola, Brasil e Espanha. Em 1957 formou-se em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras de Lisboa. Aos 36 anos editou o seu primeiro livro: Arte Poética. Vive em Estremoz, no Alentejo, onde aprendeu “a caça às perdizes e às ideias”.
António Telmo é um dos discípulos dos filósofos portugueses Álvaro Ribeiro e José Marinho. Estudou o “esoterismo das tradições do Livro Sagrado: a judaica, a cristã e a muçulmana, numa preocupação de descoberta da sua essencial unidade, portadora da esperança do Quinto Império, dito do Espírito Santo”.
Dedicando uma especial atenção ao diálogo com a poesia, António Telmo entende a filosofia como via de conhecimento de cariz operativo. Segundo os especialistas “António Telmo descobre uma antropologia que, através da cosmologia, converge para a teologia”.
É autor das obras Arte Poética (1993), História Secreta de Portugal (1997), Gramática Secreta da Língua Portuguesa (1981), Desembarque dos Maniques na Ilha de Camões (1982), Filosofia e Kabbalah (1989), O Bateleur (1992), Contos (1999).
- Que memória tem da terra onde nasceu e que importância ela teve para si?
Tem muita importância para mim, embora há muitos anos não vá a Almeida. Fui lá uma última vez, talvez, há 20 anos, mas tenho estado sempre a programar voltar lá com amigos.
As lembranças que eu tenho são das muralhas e de brincar com outras crianças. Uma vez ao entardecer, há um rapaz que grita “Aí vem a Senhora da Manta!” e então eu tive a percepção de que existia uma mulher temível com uma manta grande. Desatámos todos a fugir, completamente em pânico. Não havia nenhuma Senhora da Manta, devia ser uma crença da região pois depois disso ouvi falar da Nª Sr.ª do Manto. Que é a Nª Sr.ª das Misericórdias que tem um manto a proteger a humanidade. Deve ser a mesma, não é?
Lembro-me doutras coisas, da morte do meu avô, a impressão que me fez ver passar o féretro, era eu garoto. Lembro-me também de um incêndio que com outro garoto ateei, vieram Bombeiros e tudo. Aí senti grande ligação ao meu pai porque o Tio Ernesto começou a ralhar comigo e o meu pai deu-lhe uma descompostura, de que não se fazia isso a uma criança. Eu era pequenino e isso ligou-me muito ao meu pai, porque eu vi que tinha ali quem me defendesse; são as coisas de que me lembro de Almeida. Fui lá mais tarde e vi então as muralhas e a casa onde nasci.
Toda a minha família é de lá. O meu avô foi Presidente da Câmara e o meu pai [António Diniz Vitorino] foi director do jornal. O meu pai não era de lá, era de Campo Maior. Foi Director do jornal O Almeidense, que se editou durante muito tempo. Depois temos os meus tios; um deles devem conhecer, foi o Teófilo Carvalho dos Santos, que foi Presidente da Assembleia da República, e que era irmão da minha mãe. Nesse tempo da República eles foram muito importantes. O meu tio mais velho, o tio José, era, digamos, o cérebro da família. Mas do meu tio José lembro-me vagamente, dei-me muito mais com o meu tio Teófilo.
-Afirmou que quer “nascer de novo mas que não sabe nem quando, nem como, nem se é possível fora deste mundo”. Se fosse possível, onde, quando e como queria nascer?
Olhe, uma coisa: onde é que eu digo isso? É que eu não me lembro! [Diz isso numa nota biográfica dos “Contos”] Ah!, onde falo de Almeida e da Profecia de Nostradamus ?! O que eu digo, é que gostaria de nascer de novo. Pois, como sabe, na tradição esotérica do Cristianismo, e não só do Cristianismo, o que conta é a doutrina do que nós somos… seres decaídos, em virtude de um mistério tremendo que não se sabe o que seja, a que chamam o pecado original e que eu penso que terá sido o aparecimento da antropofagia. Mas isso é apenas uma conjectura. E então nós nascemos para esta vida mas é como se morrêssemos, porque eu aceito a pré- existência das almas, não de todas, mas aceito a pré- existência das almas, e então há como que uma queda, de que fala Fernando Pessoa quando diz que veio caindo de esfera em esfera até este corpo em que está. Então, se é um nascimento novo e isso não é possível, podíamos usar a imagem poética de “regresso ao paraíso”, não é? Bem, se não é possível, como é que isto se faz? Eu não sei! É isso que eu digo, não sei como, nem onde, nem quando, não é? E esse meu não saber constitui um dos princípios que eu sigo sempre, porque eu penso que nós sabemos precisamente quando não sabemos, porque sempre estamos convictos de qualquer coisa, mas não fazemos senão seguir a ideia comum, o que toda a gente sabe. Quando, perante qualquer fenómeno, acontecimento, pessoa e estado de alma, a gente sente que está ali qualquer coisa enigmática, que nós não sabemos o que é, e que temos a sensação desse enigma, então isso, para mim, é que é o saber, o saber autêntico, ou o princípio do saber, que é o que Platão e o Aristóteles, – costuma-se atribuir ao Aristóteles, mas antes dele já Platão o tinha dito – tinham escrito, que o princípio da Filosofia é o espanto. É o que eu digo… não sei como, começo a saber qualquer coisa disso. Mas isso é intransmissível, não é?
-A certa altura, Agostinho da Silva convidou-o a ser professor na Universidade de Brasília. Como foi essa experiência e o contacto com Agostinho da Silva?
Bem, eu não supunha que houvesse no mundo um homem como aquele. Eu tinha conhecido gente muito elevada, como o Eudoro de Sousa, que fui lá encontrar também, o Álvaro Ribeiro, o José Marinho, o Sant’Anna Dionísio, pessoas muito elevadas, até o Pascoaes eu conheci. Mas eu nunca esperava encontrar um homem daquela natureza. É que não era só um pensador - como pensador era extraordinário - era um homem completamente diferente de tudo o quanto se podia ter conhecido. Foi essa a impressão que ele causou em mim, porque ele comia uma sandes de manhã e estava “comido” para o dia todo. Eu sou testemunha disso. Era uma pessoa pequena mas forte, enérgica, de uma bondade extrema, com um poder de palavra que todos conheceram e admiraram… de uma coragem… Posso só contar-lhe uma coisa? Uma vez, andou de pé na asa de um avião, num daqueles aviões pequenos e andou lá em cima de pé. Quer dizer, o piloto era amigo dele, ia controlando, e ele em pé. Eu perguntei-lhe: “Então, nunca tem medo?” e ele respondeu-me “Tenho, retroactivo!!!”. Depois contou-me isso do avião, que quando chegou cá em baixo teve um medo pavoroso, lembrando-se do medo anterior.
-Mas ele convidou-o para ser professor na Universidade?
Sim. Ele e o Eudoro de Sousa. Aquilo começou quando o António Quadros foi a Brasília fazer umas conferências e no meio de uma conversa, alguém disse o “António Telmo era uma pessoa que era capaz de querer vir”. Entretanto escreveram-me. Até se verificou um fenómeno impressionante, que eu não sei compreender, porque eles disseram para eu ir imediatamente. Pediram-me para eu escrever ao Reitor a dizer que estava disposto a ir e eu escrevi. Na volta do correio, o Reitor disse: “Você já é professor da Universidade e venha imediatamente”. O passaporte demorou, isto foi em Dezembro e eu fui para Brasília no dia 1 de Fevereiro do ano seguinte. Mas em Agosto do ano anterior eu estava em Lisboa, num momento mau da minha vida, e apareceu-me um amigo que, como sabia que eu estava num momento mau, veio com a história de um astrólogo que eu devia consultar. Eu não ligava nenhuma a isso até porque sabia astrologia…. eu queria lá saber do astrólogo!!! Mas ele disse-me: “Mas vai, eu pago-te a consulta”. Tanto insistiu, que eu fui para lhe fazer a vontade. Esse Astrólogo era o Hórus, um homem daqueles que são sempre uns aldrabões, que ganham dinheiro com essas coisas, mas ali não foi o caso, porque o Hórus olhou-me para a mão, mais do que para o horóscopo, embora me tivesse perguntado a idade. Era um sujeito simpático, vestido normalmente, como nós, até muito bem vestido e educado e olhou-me para a mão e disse-me assim: “Você vai para o Brasil em Fevereiro do ano que vem!”. Eu ouvi aquilo e disse: “Sabe, eu não gostava de ir para o Brasil, arranje-me aí outra cidade aqui da Europa, mais perto!”. “Então, deixe cá ver”, começou a olhar e disse “é mesmo o Brasil, não posso mudar, e além disso vai encontrar a mulher dos seus filhos no dia 1 de Outubro”. Está ali dentro, está também ali a minha filha [aponta para outra divisão da casa]. E disse-me muito mais coisas, que de facto aconteceram todas exactamente nos dias que ele tinha dito. Houve a história do passaporte e ainda por cima uma coisa curiosa: eu tinha avião no dia 31, o avião teve um problema no vidro da frente e tiveram que o mudar, só saindo no dia 1 de Fevereiro, no dia que o homem disse. E depois eu contei a história a muitas pessoas, até porque é verdadeira, achando piada, “vejam lá que vou para o Brasil”. Depois até fugi, sabe? Não me despedi na escola, peguei em mim e meti-me no avião e fui-me embora para o Brasil. Lá, ensinava Literatura Portuguesa e Latim. Literatura Portuguesa junto do Centro de Estudos Portugueses do Agostinho da Silva e o Latim junto do Centro de Estudos Clássicos do Eudoro de Sousa.
-Numa nota biográfica, António Telmo manifesta o desejo de pertencer a uma “organização conventual de altos espíritos que guardassem o mundo humano neste tempos de fim”. O que o impede de concretizar esse desejo?
Isso é uma maneira de dizer. Eu disse isso talvez por causa da rua onde nasci, que foi a Rua do Convento, em Almeida. Do que eu queria falar é de uma organização invisível, a que eu gostaria de pertencer, mas sabe, todos nós, se calhar, pertencemos a essa organização e não o sabemos. Quer dizer, saber é tomar consciência disso porque nós sabemos que existem organizações às centenas, não é? Há os Rosa-Cruzes, qualquer grupo junta-se e faz uma organização que se diz iniciática. Há muita influência do Oriente, do Budismo, do Taoísmo, e depois há pessoas que praticam meditação, eu, aliás, já estive numa coisa dessas. Há depois, a Maçonaria e a própria Igreja Católica também com os seus conventos. Eu gostava de pertencer a uma organização que não fosse nada disso, que fosse aquela organização em que as pessoas convivem umas com as outras sem ser preciso falar, só pelo pensamento, e nesse sentido eu acho que há uma organização dessas.
Dizia José Marinho que havia em Portugal 500 pessoas que pertenciam a uma organização dessas, sem o saberem. Ele até dizia: “Muitos, estão espalhados pelas províncias”. Não se referia aos intelectuais, às vezes até um camponês pode ser uma dessas pessoas.
-António Telmo é considerado discípulo de Álvaro Ribeiro e de José Marinho. Como é a sua relação com a chamada Filosofia Portuguesa e que influência recebeu daqueles pensadores?
Devo-lhes tudo. Nós todos pertencíamos a esse grupo, mas em vez de um Mestre, como é costume, tínhamos dois. E os dois entendiam-se, olhavam para a mesma estrela mas os caminhos não eram os mesmos. Então aquilo fazia com que nós tivéssemos que estar sempre a ligar um ao outro, a ver como a coisa se ligava ou como se separava e isso exigia uma agilidade mental que se ia desenvolvendo até com o convívio, com o convívio com eles. Enquanto que o José Marinho falava muito, o Álvaro Ribeiro falava muito pouco, e tudo isso nos colocava num ambiente de grande veracidade. Todas aquelas coisas que preocupam os adolescentes, o amor e a relação com Deus, tudo isso aprendi ali com eles. Aprendi a clarificar a minha posição perante a Igreja, perante a Maçonaria, perante a política, e escrevi os meus livros. Embora os meus livros sejam originais porque não seguem nenhum deles, seguem… olhando também para a mesma estrela.
-Nos tempos que correm o interesse pelo esoterismo transformou-se numa moda. Neste contexto como classifica o seu trabalho de decifração daquilo que é alegórico ou simbólico?
Pois, sabe, esse tem sido um dos meus problemas. Estou grato ao Pinharanda Gomes, que escreveu agora no Diabo coisas sobre mim, onde ele diz também isso precisamente. O modo como eu olho o esoterismo não tem nada que ver com o modismo em que se transformou o esoterismo. Eu escrevi a “História Secreta de Portugal”, naquele momento do 25 de Abril. Era uma ideia que eu trazia desde há muito, desde que visitei o Mosteiro dos Jerónimos e que fiquei impressionado com os símbolos que estavam no claustro. Toda a vida andei a pensar naquilo até que no 25 de Abril escrevi o livro. É também uma demonstração de patriotismo, não é? Um patriotismo diferente, não é aquele patriotismo gasto, é um patriotismo que tem em conta o mundo dos espíritos, não é? E então escrevi aquilo, mas tive a tristeza de ver… aquele livro teve um grande êxito, e que eu ganhei 15 contos com ele. Até agradecia que na entrevista ficasse esta referência, porque eles merecem que se saiba. Quinze contos e fizeram uma quantidade de edições, eu calculo que foram feitas umas trinta. Ainda agora estão a fazê-las!
O Fernando Pessoa foi, também, muito culpado. Fernando Pessoa também teve uma grande influência nesse sentido. Depois houve uma grande importação, de seitas e esoterismo, que veio com o 25 de Abril. Toda a gente começou a ir atrás dessa moda, que hoje é a Cabala. Não sei, se tem seguido isso da Madonna? A Madonna, sabe quem é? Vinha aí no jornal que a Madonna queria ser discípula de um mestre cabalista de Israel, um autêntico mestre. E fez esforços para isso, não é? Esse senhor disse que a Cabala não aceitava mulheres, que hoje era um modismo - tinha sido o Budismo há uns anos e agora passou a ser o cabalismo – e que dentro da tradição cabalística não entra a mulher. Por outro lado, é muito mais importante o comportamento do que a doutrina. Ora a Madonna tinha um comportamento desgraçado, portanto, nunca podia ser cabalista. Já houve a resposta dela a isso, dizendo que estava farta de dar dinheiro para a Cabala e que quer as contas e não sei o quê?! Quer dizer, já estão a querer destruir…
O esoterismo é uma coisa muito séria, porque é, digamos, o lado divino da sabedoria humana. Até onde a gente pode ir. Esse é o esoterismo. O esoterismo é uma coisa muito séria, portanto, tem que ser destruída como tudo no nosso tempo. No nosso tempo, estão a procurar destruir tudo, não sei se concorda? A maneira de destruir o esoterismo, o que é muito difícil, é com o próprio esoterismo, é dizendo que se é esotérico e fazendo o “esoterismo” que vai destruir o genuíno. Não é só ser uma moda, pois há uma iniciativa orquestrada para destruir o esoterismo. Aliás, falar de esoterismo é uma contradição. Esoterismo é o que não se diz. Eu uma vez fui a um colóquio ali em Cascais, juntamente com outras pessoas, algumas que eu prezo muito, Ivette K. Centeno, José Manuel Anes e vários outros conferencistas. Quando foi a minha vez, disse-lhes isto simplesmente: “Eu não falo sobre o esoterismo, o esoterismo é aquilo que não se diz, parece impossível como vocês organizaram um colóquio… Vocês querem destruir o esoterismo!”. Ficou tudo aflito, ninguém sabia como é que havia de falar daí em diante, mas de facto é isto, não é? O esoterismo é o que não se diz e eles andam a destrui-lo desta maneira.
-Faz sentido o exercício da Filosofia sem que esta tenha um cariz transformante da realidade?
Não, claro que não. Não faz, para mim, não faz. No meu livro “Arte Poética”, que é o primeiro livro que eu escrevi, desenvolvo a tese de que a Filosofia só tem valor quando for Filosofia Operativa. Eu oponho-me a uma Filosofia meramente especulativa, ou seja, que seja apenas uma reflexão própria e narcisista. A filosofia tem que produzir uma transformação, precisamente, do Filósofo. Em primeiro lugar do Filósofo e depois tem que ajudar a transformar os outros que o lêem.
-A revelação do secretismo parece ser uma das suas missões. Não seria melhor preservar o secreto?
Eu penso que já respondi a essa pergunta.
-No entanto, escreveu dois livros que aparentemente são uma revelação do que é secreto.
Justamente, eu era mais novo e não tinha visto ainda… Eu sinto-me um pouco culpado desse modismo esotérico. O Fernando Pessoa também foi culpado disso. O que ele escreveu sobre o esoterismo e depois como era um grande poeta, de um grande prestígio, as pessoas iam muito por aí.
-Isso quer dizer que hoje não publicaria aqueles dois livros?
De outra maneira, publicava-os de outra maneira. Mas veja que eu ali não revelo propriamente, eu faço uma hermenêutica de uma simbólica arquitectural. Sobretudo, na primeira parte do livro “História Secreta de Portugal”. Depois quanto à língua portuguesa, eu procuro valorizá-la. Porque, veja, tudo o que e eu escrevi é uma coisa de cariz patriótico. Não é patriótico no sentido político, é patriótico no sentido que somos um povo e, como aprendi na Filosofia Portuguesa, esse povo, dizia o Álvaro Ribeiro, não é um povo analfabeto, é um povo que fez a língua portuguesa. A língua portuguesa é uma maravilha de obra de arte, um povo que faz uma língua nunca pode ser analfabeto, pode haver analfabetos nesse povo, mas o povo em si não é analfabeto. Ora, ele exprime-se e é dos poucos que se exprime pela arquitectura, exprime-se pela Filosofia, exprime-se pela Poesia e, sobretudo, pela língua. Então eu o que é que eu fiz? Parece que foi uma coisa mesmo programada, eu fiz primeiro a “Arte Poética”, em que eu digo qual é o quinto filosofar, de que já falei há pouco, uma Filosofia Operativa, depois já tenho umas indicações do que é a própria arte poética, como se deve fazer hermenêutica. É uma teoria da hermenêutica.
A “Gramática Secreta da Língua Portuguesa” pretende mostrar que a língua portuguesa é sagrada, que não é só o Latim – o Latim, aliás, não é uma língua sagrada, é litúrgica – não é só o Hebreu e o Árabe, pois todas as línguas são sagradas. Para mim são todas sagradas, porque o grande problema é o da comunicação dos espíritos, porque o mal vem daí, não é dos espíritos, não, pois os espíritos somos nós, não é? A comunicação está como que quebrada, é curioso que na nossa época há toda esta coisa à volta da visão da informática, dos Mass Media, da comunicação, mas isso é tudo falso, porque não se dá comunicação, dá-se comunicação por baixo. Comunicação por cima é uma comunicação em que os espíritos se entendem, é dificílima. É por isso que as pessoas devem pensar estas coisas, estudar estas coisas para ver se os espíritos comunicam uns com os outros, porque no dia em que se der a comunicação universal dos espíritos, esse dia é que é o dia da redenção. Existe o mal porque as pessoas não se entendem, não é? E não se entendem porque não se podem entender, porque há uma ruptura entre o ser e o pensamento que se deu.
O pecado original é uma ruptura entre o ser e o pensamento, quer dizer, eu não sou aquilo que penso e penso aquilo, penso mas não sou. O que eu chamo Filosofia Operativa é aquela Filosofia em que o pensamento é ao mesmo tempo o ser da pessoa.
-Concorda com a ideia de que aquilo que tem feito através da sua obra é pensar o irracional?
É verdade. É por isso que eu criei a expressão “Razão Poética”. O Leonardo Coimbra já tinha criado uma “Razão Experimental”, o Álvaro Ribeiro falou numa “Razão Animada” e o Ortega y Gasset falou de uma “Razão Vital”, mas eu criei a expressão “Razão Poética”, precisamente por causa dessa relação com o irracional, porque um irracional que não é pensado é qualquer coisa de inquietante. E o pensamento é a lâmpada que alumia o nosso caminho no mundo irracional e do supra - racional. Sim, porque há o sub-racional e o supra - racional, e o pensamento é uma lâmpada porque vai alumiando o caminho, mas para isso é preciso aprender a pensar, é preciso conhecer a sua língua. Para isso é preciso conhecê-la nos seus arquétipos, não é? E depois verificar como tudo é uma língua, desde a Arquitectura ao próprio Universo, como dizia o Guerra Junqueiro: “A natureza é a única Bíblia verdadeira, és tu.”
-Toda a sua investigação se desenvolve em torno da palavra. Que importância afinal, tem a palavra no nosso tempo?
Tem cada vez menos, porque o que cada vez funciona mais é a Internet. São os computadores, claro que a palavra também lá está, mas para ser destruída.
Eu li com muito gosto a entrevista que vem na última Praça Velha, do nosso cientista [Carvalho Rodrigues], e gostei. É uma pessoa muito inteligente, tem lá muita coisa com que eu concordo… Mas, eu não concordo com a ciência… eu concordo com a ciência como actividade do pensamento que investiga o mistério e isso sim, um Newton, um Pedro Nunes, são realmente filósofos. Mas repare que hoje já não se diz o nome do cientista, só o nome de laboratórios, e que eles resolvem as coisas por experiências sucessivas. Por exemplo, uma doença. Apanham lá o bichinho para testar a doença e depois vão deitando coisas lá para dentro, vão deitando até que acertam e então depois vem anunciado que foi descoberto o remédio. O remédio e depois um elemento qualquer que muitas vezes faz pior, até mata o bichinho, isto no domínio da Medicina. Depois, eu acho que é um horror a clonagem, em toda a gente! Agora está a falar-se na transplantação de órgãos de porcos, que é o futuro, órgãos de porcos!? De facto o corpo humano é parecido ao do porco, parece que é óptimo. Dá-me a impressão que se a ciência continua assim, eu ou o meu amigo podemos ser transformados completamente noutro, trocamos os pés, depois trocamos os olhos, depois os pulmões. E a individualidade? Isto vem provar que a individualidade não tem nada que ver com o corpo, não é?
A própria ciência ao querer destruir o mundo do espírito, mostrando que é capaz de manipular a Natureza, vem dar razão àqueles que dizem que o espírito não tem nada que ver com o corpo. O corpo morre e o espírito fica, e se isso não for assim o melhor é não plantar a árvore.
-Uma das suas ideias mais surpreendentes é a de que… as ideias lhe são comunicadas pelos anjos?
Bem, eu tenho vários acontecimentos na minha vida que provam essa informação. De resto, um deles contei-o num dos meus livros. Foi aquela história do soneto do Gomes Leal. Eu decorei o soneto do Gomes Leal, do Fernando Pessoa. É um soneto do Fernando Pessoa sobre o Gomes Leal, justamente. Eu, de garoto, quando li Fernando Pessoa, gostei desse soneto e decorei-o. Eu sabia o soneto de cor mas não o percebia. Sabe, eu nunca me incomodei com isso e cheguei a ler um livro da primeira à última página sem perceber nada, mas eu não me incomodava. Ia lendo, gostava de ler sem perceber e eu achava que o soneto tinha um ritmo e uma sonoridade admirável, tinha qualquer coisa de muito misterioso. Então, eu decorei esse soneto, e o que é que aconteceu? Passados muitos anos, eu andava de volta de um amigo meu, que sabia astrologia, para que ele me ensinasse a fazer horóscopos. Mas ele achava que aquilo era uma ciência secreta, que só a ele pertencia e que não me ensinava. Entretanto, fiz anos a 2 de Maio e uma colega minha ofereceu-me um livro de Gaspar Simões que se chama “A vida e obra de Fernando Pessoa” e, então, pus os dois volumes na estante. Chegou a ocasião daí a uns dias e o tal amigo ensinou-me a fazer o Horóscopo. Vim para casa sabendo fazer os horóscopos com as tábuas astronómicas que ele me emprestou. Fiz o meu horóscopo aqui, eram 11 horas da noite, deitei-me e às 3 horas da madrugada eu ouvi, nitidamente, interiormente, uma voz natural a dizer-me: “Olha, o soneto Gomes Leal do Fernando Pessoa não é o horóscopo do Gomes Leal, é o horóscopo do Fernando Pessoa”. Quando acordei ouvi aquilo… levantei-me e disse assim: “O que é isto? Como é que eu hei-de saber a hora do nascimento do Fernando Pessoa?”. Lembrei-me do livro que me ofereceu fulana, fui à estante, puxei do livro e logo na primeira página estava a hora, o dia, tudo, todos os elementos necessários para fazer o horóscopo. Fi-lo logo ali. Foi o segundo que fiz, o primeiro tinha sido o meu. E era exactamente o horóscopo do Fernando Pessoa como eu demonstrei no livro que já escrevi. Ora aqui é que se dá a comunicação, não digo que seja de um anjo. Há uma comunicação. E depois tenho outros casos que não importa contar. Eu hoje leio coisas minhas e fico espantado como é que fui capaz de escrever aquilo, como se tivesse sido escrito num sonho… Quer dizer, há uma comunicação para quem escreve, quem escreve é ajudado pelos anjos. Não só quem escreve, não é?
-Há anos verificou que Portugal estava a morrer. Em que baseava essa ideia e o que pensa que, entretanto, aconteceu?
Bem, eu acho que morreu! Não acho que Portugal tenha morrido, nós morremos. Nós, os portugueses, morremos. Portugal é um anjo, como dizia o Agostinho da Silva, um dos nomes de Deus. Agora, valha-nos Deus, Portugal continua. Simplesmente esta coisa em que nós vivemos, a que chamamos Portugal, para mim, não é nada, Portugal não é nada. Eu acho que acabou na primeira Dinastia, com D. João III acabou. Ora, o que se devia fazer hoje era precisamente tentar recuperar isso, não é? Nós, na Filosofia Portuguesa, é o que temos tentado fazer, mas ou somos ignorados ou somos combatidos. Mas, apesar de tudo, já vamos sendo seguidos por muita gente, por os tais 500. E os tais 500 existem e eles estão a conseguir alguma coisa. As suas perguntas são um sinal disso.
-Ao longo do seu percurso reflectiu muito sobre a arte poética. Quais devem ser, pois, as intenções da poesia? E como deve a poesia relacionar-se com o pensamento filosófico?
Acho que a poesia não tem intenções porque a poesia é também o resultado da colaboração do homem com o anjo. Claro que eu não digo que o anjo é que escreve os poemas, é o homem que escreve os poemas ajudado pelo génio! O génio era esse anjo que a gente vê nas “Mil e uma noites”, os génios que são educados. Depois também há os graus angélicos, quer dizer, cada homem tem o seu anjo, dependendo do seu comportamento. Também vamos mudando de anjo. Na medida em que vamos mudando de anjo, a poesia não terá intenções. Agora, se o poeta vê, o poeta começa a pensar pela imaginação, não é? Pela palavra, pelo ritmo. Começa a pensar o mesmo que o filósofo pensa através dos conceitos.
Eu não acho que a poesia deva ser filosófica, nem que a filosofia deva ser poética, mas acho que devem estar em diálogo uma com a outra, porque a poesia que se esquece da Filosofia é uma poesia que degenera para coisas fúteis ou insignificativas. O mesmo acontece a uma filosofia que se esquece da poesia, pois torna-se num irracionalismo puro. Ora a razão poética é a que eu aconselho aos filósofos. E para os poetas seria como que uma poesia não filosófica, mas uma poesia que tivesse em conta a filosofia. É o caso de grandes poetas, como por exemplo, o Teixeira Pascoaes que manteve um diálogo constante com o Sampaio Bruno e com o Leonardo Coimbra.
-Nos últimos livros parece ter optado pela fábula popular enquanto veículo poético. Abandonou os textos explicativos que constituíam as outras obras?
Mas eu digo o mesmo, não é? Sabe, os velhos gostam de contar histórias, não é? E então como eu já estou velho, agora gosto mais de fazer a coisa como contos, nessa forma mais filosófica. Pois fui-me afastando um bocado disso. Mas não sei porquê, também. É verdade.
-Considera-se um pensador solitário?
Não, eu acho que há aí uma nova geração, que escreveu um livro sobre mim [“António Telmo e as gerações novas”, Edição Hugin, 2003]. Há aí uma nova geração que me acompanha, e não estão aí todos. Sim, antes de… Eu tive muitas saudades dos meus mestres, de eles morrerem, de eles falecerem, do Agostinho da Silva… Dá a impressão que fiquei sozinho, tive essa sensação porque morreu toda a gente, olhe aqueles retratos que estão ali… só a Dalila é que está viva, o resto morreu, todos eram meus amigos. António Quadros, Fernando Pessoa, não era meu amigo, mas…, Agostinho da Silva, Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Rafael Monteiro, o Afonso Botelho. O Rafael Monteiro era de Sesimbra, esse sim, era um solitário.. E, como vê, nessa altura sentia-me solitário, mas depois houve pessoas que me procuraram.
-Sente-se acompanhado, agora?
Sinto-me muito acompanhado, até… de pessoas.
-Considera, pois, que tem discípulos e que é um mestre?
Se considero que tenho discípulos? Não, de resto o Pinharanda Gomes fala disso no Diabo. Não me considero um mestre. Eu não considero e qualquer desses que aí estão no livro não podem dizer que são meus discípulos, porque eu ainda não lhes disse que eram, não é? Porque o mestre é que diz quem é o discípulo.
-E um discípulo não pode escolher um mestre?
Não pode. Podíamos estar sujeitos a que qualquer cavalheiro dissesse que era discípulo. Agora seguidor, aceito. Eu gosto muito da expressão “olhar a mesma estrela”. Eu aceito que eles todos olhem a mesma estrela, mas isso não me põe a mim na situação de mestre. Companheiro mais velho, não é?!!
Actualmente encontramo-nos mais em Lisboa, houve uma época que nos encontrávamos aqui [em Estremoz] muito, e em Vila Viçosa, no café e aqui em casa. Actualmente encontramo-nos mais em Lisboa por causa das viagens, porque para os dois que são do Porto é-lhes difícil virem a Estremoz. E encontramo-nos em Lisboa, mas mais espaçadamente.
-Funciona como uma espécie de tertúlia de café?Pois, temos conversas assim, como nós estamos a conversar, eu falando menos.
Sabe, eu uma vez fiz uma comunicação, uma conferência nas Caldas da Rainha, na escola. Estavam professores e alunos a assistir e então o tema era a Filosofia Portuguesa. E eu a certa altura disse que a Filosofia Portuguesa era uma Filosofia de café. Quando aquilo acabou, uma quantidade de raparigas vieram ter comigo a perguntarem-me qual era o café onde eu ia. Quando eu respondi que era em Estremoz elas exclamaram: “Que pena!”.
-O que é que Portugal tem de secreto e sagrado que faça dele uma entidade?
A avaliar pelo Mosteiro dos Jerónimos, por Tomar, por Belém e pela arquitectura templária, houve aqui em Portugal a continuação daquilo que desapareceu na França e nos outros países, com a destruição dos templários. Foi como que se se tivessem escondido aqui. A última organização iniciática autêntica foi Portugal, está expresso no Mosteiro dos Jerónimos. Depois, a tradição diz que os Rosa Cruzes levaram o grau para a Índia em caravelas que tinham a cruz templária nas velas, precisamente quando os templários foram destruídos, em 1300. Aqui ficaram, mas eu não sei se o próprio Dante o soube, porque o Dante põe o D. Dinis no inferno, ora o D. Dinis era templário. O Dante pôs o D. Dinis no inferno porque o D. Dinis teria roubado o tesouro aos templários. Afinal, o que é que aconteceu? É que de facto D. Dinis ficou com o dinheiro dos templários e ao fim de sete anos aplicou-o na Ordem de Cristo. O Dante não soube disto. A Ordem de Cristo foi buscar outra vez os templários e também os de Calatrava, alguns fugidos em Espanha. Foram muitos lá para a nossa Beira, mas depois D. Dinis fez-lhes um sinal, “já podem vir”. E então continuou a coisa aqui em Portugal, e a Europa sem o saber. Isto é uma ideia para demonstrar.
-O que é que Portugal tem de secreto e sagrado que faça dele uma entidade?
Pois tem uma coisa muito importante para mim e para si, é que Portugal é nosso. Quer dizer, nós somos portugueses e como tal é boa essa ideia de Portugal ser secreto e sagrado, porque isso pode-nos fazer lutar por Portugal. Não deixar que isto chegue ao abismo.
-Mas é isso que está a acontecer?
Está a acontecer, a Portugal e ao mundo. É fatal, porque a evolução da humanidade é por ciclos, quer dizer, é como que por semicírculos. Dá-se o nascimento, depois há uma subida e a seguir há uma decadência. Quando termina ali, dá-se a volta para outro semicírculo. Isto é uma coisa que deve acontecer lá para Capricórnio, ainda leva muito tempo.
-O quê?
O acabar do mundo! E tem que acabar pela antropofagia. Sim, o mundo vai acabar, segundo Ernst Junger, um grande escritor alemão. Ele disse a certa altura que a economia actual leva fatalmente à antropofagia. Eu disse isto à minha mulher e ela ripostou: “Sabes, é que os alimentos, qualquer dia, não se podem comer. Nem os animais, nem os peixes”. Claro que é uma explicação de uma senhora que trata da sua casa e que cuida dos alimentos. Então, começam a comer-se uns aos outros e de resto é essa a profecia do Rei do Mundo, no livro “Das Estepes Russas aos Himalaias”. O autor conta que lhe foi dito pelo sacerdote Dalai Lama que o mundo acabava com os homens a comerem-se uns aos outros.
-Devo entender isso no sentido literal ou é uma metáfora?
No sentido literal. Não se esqueça de que numa grande civilização como a dos Celtas não se comiam mas queimavam-se homens e que numa grande civilização como a dos Maias se comiam homens, e que na Bíblia há o episódio do Abraão que vai sacrificar o filho, que Deus pára substituindo-o por um veado. A ideia do sacrifício humano é que está em questão. Não é assim com o Cristianismo, pois acabaram os sacrifícios humanos, que foram feitos pela Inquisição, essa coisa monstruosa da Inquisição.
-Está a preparar algum livro?
Eu ando a escrever uns diálogos sobre Os Lusíadas, chamam-se “Diálogos de Tomé e Natã”, sobre a essência dos Lusíadas. O Tomé dialoga com o Natã, quer dizer, a figura que eu criei – Tomé Natanael, o antiquário – fala com ele próprio. É uma dianoia, o Tomé com o Natã , pois eu divido o nome dele. Há um Cristão agnóstico que é o Tomé, pela tradição dos actos de São Tomé, o canto da pérola. O outro, Natã, é um Judeu, aliás, houve grandes cabalistas com o nome Nathan, Nathan de Gaza, por exemplo. Então, ambos estão de acordo quanto à doutrina agnóstica essencial mas há olhares diferentes, o olhar de um Judeu e o olhar de um Cristão, entendendo-se. Claro que isto não vai na corrente habitual do Cristianismo.
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