O escritor Manuel Poppe escreveu hoje no Jornal do Notícias (um dos mais lidos do país) uma crónica a que chamou "A Guarda em perigo". A reprodução do artigo pode ler-se aqui. Poppe junta-se a outros que quiseram protestar contra uma situação "insustentável", parafraseando o grande vate nacional Cavaco Silva.
Na verdade, estamos perante um caso que custa entender e aceitar. Para quem se habitou a olhar para o TMG como um caso de referência, no país e nas relações transfronteiriças, é muito difícil entender e aceitar como a sua posição, na sua cidade, é de extrema fragilidade. Ou, pelo menos, parece ser.
O TMG tem sido apontado pelos seus pares de outras zonas, por autarcas de outras terras, por responsáveis culturais e até pela Ministra da Cultura como um caso exemplar daquilo que um equipamento pode fazer pelo desenvolvimento cultural do seu território. O TMG tem sido dado como exemplo em vários foruns e mesmo no estrangeiro. O seu director tem sido, continuamente, convidado para falar daquela que é dada como uma boa experiência em termos de programação, trabalho educativo, cooperação internacional e envolvimento da comunidade. O TMG é alvo de interesse generalizado por parte dos programadores de país e por estudiosos: um teatro de província que se conseguiu afirmar pela coerência do seu trabalho e pelo que faz pela promoção da sua cidade.
Ao mesmo tempo, dir-se-ia que no plano local, vencendo algumas dificuldades iniciais, o TMG estava a desempenhar um papel reconhecido por todos os sectores. A sua gestão melhorou e equilibrou-se, a programação tornou-se mais abrangente, o diálogo com os agentes e colectividades é permanente, o trabalho com escolas é considerado fundamental.
Finalmente, parecia que ter o TMG numa cidade como a Guarda era uma decisão estratégica, como tantas vezes o disse a Câmara. E que essa estratégia tinha um suporte eleitoral (principalmente do PS), nem que fosse pelo protagonista da presumível "política cultural" ter sido, até há pouco tempo, o presidente da concelhia do PS e se manter como Vice-presidente da autarquia. Por fim, o próprio presidente do executivo, não sendo um Homem de/da Cultura, nunca a hostilizou. Pelo contrário, várias vezes a valorizou.
Porém, os acontecimentos da mais recente Assembleia Municipal vêm colocar várias questões que importa não desvalorizar ou branquear. A votação da AM colocou em causa, de forma grave, a ideia (que o país tinha) de que a Guarda era uma cidade que acarinhava a Cultura e tinha no TMG um equipamento -base dessa aposta. Podemos fazer de conta que não houve aquela votação (apelando a um corte no subsídio ao TMG) e podemos também fazer de conta que ela não foi obtida com os votos do PS, a força que, supostamente, é o sustentáculo político de apoio ao actual executivo. Eu não gosto de fazer de conta e, por isso, julgo que estamos perante uma situação que requer análise... e determinação.
Neste momento já é secundário saber as motivações do presidente da Aldeia Viçosa (cuja eleição, não se esqueça, teve o apoio do PS) dada a falta de credibilidade desse autarca, que não passa de uma figura menor local. O homem agiu por "vingança" e isso está devidamente explicado.
O que importa, agora, é perceber:
- Os presidentes da junta estão profundamente descontentes com atrasos nas transferências de fundos pela Câmara. Têm razão?
- A maior parte dos presidentes não tem ideologia (alguns tanto são do PSD como a seguir já são do PS). Isso contribuiu para que não percebessem que o seu voto deixaria a Câmara PS numa situação difícil.
- A introdução, na proposta, de que o dinheiro que deveria ir para o TMG passaria a ir para as Juntas serviu para conquistar a simpatia de autarcas descontentes e que sabem muito pouco acerca do que é o TMG e para que serve. Oportunismo por parte quem introduziu aquela cláusula?
- O vereador da Cultura é também quem conduz o trabalho de apoio às Juntas na autarquia. Como não previu ele a situação verificada na AM?
- Há poucas Câmaras que tenham feito tanto pelas juntas no que concerne à promoção cultural. Ideias do actual director do TMG, firmemente viabilizadas pelo actual Vereador da Cultura (Andarilho, fio da memória, A memória das coisas, festivais de cultura popular, livros sobre aspectos de história e tradição,etc.) têm promovido as localidades do concelho. As juntas não dão valor à Cultura? O Vereador achava o contrário?
- O PS absteve-se ou votou a favor. Não teve capacidade para se organizar e reagir a uma situação que colocava a Câmara em dificuldades, especialmente, o seu vereador da Cultura e ex. líder concelhia. Desorganização e inabilidade para reagir a imprevistos?
- Ninguém do PS (o partido da Câmara) fez a defesa das opções da autarquia na área da cultura. Uns por inibição, outros por cobardia. A maioria por não saber que dizer. Qual é qualidade deste grupo parlamentar? Que capacidade de argumentação crítica? Quem escolheu aquela gente? Dizem-me que a escolha foi de Almeida Santos. Talvez, agora, se perceba melhor. Porém, há sempre excepções à mediania geral: uns faltaram à sessão e outros preferiram o silêncio.
- O PSD e o CDS votaram a favor da proposta. Deram-se conta da gravidade de um apoio a uma proposta de tão fraca qualidade do ponto de vista crítico, que nem sequer enuncia uma ideia de política cultural para o concelho? Que pretendem os dois partidos? Fechar o TMG, através da asfixia financeira? Ou votaram por puro oportunismo? Acham que é assim que questões como "o que fazer com a Cultura" se resolvem? Através de votos pontuais e desgarrados? Congesso que fiquei profundamente decepcionado com algumas pessoas do PSD!
- O Bloco de Esquerda terá votado a favor da recomendação. Estranho! Ao mesmo tempo na AR a deputada Catarina Martins tem lutado pelo contrário: maior apoio para a Rede de Teatros que o TMG integrará. Já agora: há tempos ela veio à Guarda falar disso. Ninguém do Bloco local lá esteve. Isto diz tudo.
- A CDU votou contra. Não esperava outra coisa.
- A recomendação deixou à mostra a grande desorientação que reina no PS da Guarda, tendo colocado politicamente em causa o executivo e, principalmente, o Vereador Virgilio Bento. A mim também mas eu não sou político nem eleito.
- Quem terá ficado com a situação foi, presumivelmente, o actual presidente da Assembleia. Não se lhe conhece nenhuma actividade de apoio à Cultura da Guarda, ao contrário do que tem feito em relação à sua aldeia. Nunca apoiou o TMG, apesar de propalar "influência" junto do poder, que nunca foi confirmada, talvez por ser exercida nos bastidores. Não se exigiria mais do presidente da AM em defesa da Cultura e do TMG na Guarda?
- Sendo uma recomendação, não convém desvalorizar a sua importância. Claro que a Câmara pode não acatar a sugestão. Mas não podemos ignorar, politicamente, o episódio: o PS, PSD, PP e BE a votarem em união de interesses, de forma a prejudicar a acção cultural da Câmara, que tem sido uma bandeira dos últimos executivo PS?
- Depois disto alguém terá coragem de voltar com aquilo da "Guarda: capital cultural do interior?
- Repararam que a imprensa local se calou no que se refere ao concerto de vuvuzelas e da relação com o voto na Assembleia? Obviamente, não será, apenas, pelo facto de recearem que se acabem os lanches na Aldeia Viçosa. Talvez seja porque o caso das vuvuzelas é um caso de polícia. Ou porque os nossos jornalistas não estão habituados a ... relacionar.
Esperemos para ver o que os próximos dias nos revelarão.
5 comentários:
Não é eleito, mas é nomeado. A responsabilidade política não é a mesma, mas existe.
Tem razão. Como se vê.
...convém mesmo é que quem fala o faça com verdade, não vá depois passar por mentiroso... eu que não estive lá sei que o PCP votou a favor e o Bloco de Esquerda Contra... incrível que o post contempla este erro lamentável ou propositado???...
A CDU votou contra a proposta. É um dado objectivo. E que o BE não votou contra também um dado que todas as fontes confirmam. Eu não estive lá e parece que a "coisa" foi confusa. Mas não há nada como o BE esclarecer.
Eu estive lá: CDU - VOTOU A FAVOR (O QUE ME DEIXOU ESPANTADO)
BLOCO - VOTOU CONTRA E EXPLICOU PORQUÊ!
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