Terça-feira, Setembro 28, 2010

Requiem por uma livraria especial


Ontem desapareceu a Livraria Municipal, projecto sui generis que a Guarda tinha há anos. Fui eu, enquanto animador cultural da autarquia, que sugeri a criação de um espaço onde se encontrassem e vendessem obras sobre o distrito da Guarda e de autores aqui nascidos, criados ou afeiçoados. Tudo isto se passou no mandato de Maria do Carmo Borges, presidente que, de imediato, cedeu um abandonado posto de turismo dos (novos) paços do concelho, para que aí se instalasse a livraria. Representou, na época, um grande avanço, pois a cidade tinha naquele espaço acesso a obras que até ali estavam dispersas por vários concelhos (nomeadamente, monografias). Vendiam-se também obras editadas pela autarquia e outras entidades do concelho. E, sobretudo, podíamos adquirir livros de autores como Eduardo Lourenço, M.A.Pina. António Telmo, Pinharanda Gomes, A. Vasco Rodrigues, Helga Moreira e tantos, tantos outros. A livraria nada custava a manter e prestava um serviço público. Numa época, promovia também encontros e tertúlias.
Depois veio uma certa passividade (já não havia muita atenção aos lançamentos de obras de autores do distrito). A seguir anunciou-se que se mudaria para a Biblioteca mas nunca se anunciou por que não se fez essa transferência. Ontem, o projecto acabou. Os livros vendem-se agora num novo posto de turismo (na antiga farmácia da sé), onde se vendem também recuerdos e artesanato. Claro que não é a mesma coisa: agora são uma ou duas prateleiras de um posto de turismo. Claro que o posto de turismo pode vender livros também; até deve: principalmente obras de divulgação e monografias acessíveis. Mas, na livraria, o espaço todo era para ... os livros. Expostos com toda a dignidade, respirando, abertos a serem folheados com tranquilidade. Pessoas sentadas a ler. Agora são mais uma coisa, ao lado dos objectos da também desaparecida loja Coisas d'aqui. O ambiente de uma livraria não é de todo o de gente à procura de mapas ou de informações práticas. O espaço simbólico também não é idêntico. Os livros, agora, parecem ser mais uma coisa funcional. Ou decorativa.
Não sei se a decisão foi boa ou má. Se calhar acompanha os sinais dos tempos. O meu tempo, às tantas, é outro. Recordo, pois, com prazer, a pequena livraria onde descobri por exemplo a obra de Manuel Poppe, Bigotte Chorão ou Viale Moutinho, entre outros.
Dificilmente alguém como eu vai agora ao posto de turismo à procura de livros novos.

2 comentários:

César Prata disse...

Pensar nas coisas... que trabalheira isso dá! Deixo aqui um tema de reflexão para os menos cansados. Criar, ajudar a crescer, amparar... requer muito tempo, dedicação, carinho vigilante. Fechar, acabar, deixar morrer... vive bem na indiferença.

kim prisu disse...

sim só deixam morrer sítios de cultura... é pena....