Dizem que sou tímido (mas só os que não me conhecem bem). Dizem que não tenho sentido de humor (mas só os que não me conhecem bem). Dizem que só gosto de música "vanguardista e esquisita" (mas só os que não me conhecem bem). Dizem que não aparento a idade que tenho (42), que sou um pai babado e que nem toda a gente gosta da música que faço. E é verdade.
Livro: Se tenho de escolher um livro, que seja "Siddhartha" de Hermann Hesse. Li-o quando tinha 16 anos e foi uma revelação: espantosa reflexão sobre a vida, a religião, a condição humana e sua finitude terrena. Chorei quando cheguei ao fim. Mas também chorei quando, com a mesma idade, li os romances trágicos de Mário de Sá-Carneiro e "O Estrangeiro" de Albert Camus. O último grande livro que li foi "Património" de Philip Roth e li em 2011 duas grandes revelações literárias: o inglês Julian Barnes e o norueguês Kjell Askildsen.
Música: Os Joy Division foram uma espécie de religião musical para mim e o álbum "Closer" estará sempre no altar da celebração. Mas depois ouvi outros choques estéticos dos quais ainda hoje não me recompus: Suicide, Einstürzende Neubauten, Cecil Taylor, Can, Diamanda Galás, Lydia Lunch, The Birthday Party, Steve Reich, John Zorn, Mr. Bungle, Amon Tobin, Philip Glass, e tantos, tantos outros. Mas se me perguntarem qual a discografia completa que levaria para a ilha deserta (o que quer que isto signifique), escolheria sem pestanejar a discografia dos Dead Can Dance.
Cinema: Como os discos, também há muitos filmes na minha vida. Quando tinha 18 anos, um amigo mais velho falou-me de um realizador russo (que desconhecia) que fazia fascinantes "filmes metafísicos": Andrei Tarkovski. Fiquei curioso, parti à descoberta e só parei quando consegui ver todos os seus sete filmes. Foi o mote para o início da minha cinefilia. Mas há mais cineastas da minha particular eleição: Sergei Eisenstein, Murnau, Chaplin, Buster Keaton, Jacques Tati, Kubrick, Sam Peckinpah, Fellini, Samuel Fuller, Woody Allen, Polanski, Cronenberg, Lynch, Bergman, Antonioni, Gus Van Sant, etc. Actualmente, o meu cineasta contemporâneo favorito é um obscuro, radical e genial realizador húngaro chamado Béla Tarr.
Exposição: Foi por volta de 1995 que vi, na Culturgest, uma exposição incrível do artista sul-coreano Nam June Paik, que enchia salas enormes com impressionantes instalações feitas de lixo e resíduos tecnológicos, especialmente recorrendo a dezenas de ecrãs de televisão (foi um pioneiro da videoarte). Também fiquei deliciado com uma exposição do artista espanhol Antoni Tàpies (recentemente falecido), que vi no Museu Reina Sofia; ou a sempre surpreendente arte de vanguarda na Feira de Arte Contemporânea ARCO de Madrid. No TMG, gostei especialmente das exposições de Nadir Afonso, Malangatana, Júlio Pomar e Daniel Gamelas.
Teatro: "Quem Dorme Sob os Ciprestes" do Aquilo Teatro, com encenação de Américo Rodrigues, levada à cena em meados dos anos 90. Cito esta peça porque foi a primeira para a qual compus música original (a convite do encenador), ainda hoje, um dos trabalhos musicais que mais gozo me deu fazer.
Rádio: Há uma figura incontornável da rádio que influenciou o meu gosto e a minha formação musical: António Sérgio, radialista da Comercial e da XFM. Ouvia religiosamente o seu mais mítico programa, "Som da Frente". Nos anos 90 também ouvia muita rádio espanhola na qual aprendi e conheci muito boa música. Nesses anos havia excelentes e diversificados programas de autor sobre todos os géneros musicais (jazz, étnica, rock, electrónica…) e os locutores eram cultos e informados. Hoje só ouço rádio como "pano de fundo" quando conduzo (geralmente a Antena 3 ou Antena 2, e o noticiário local com a Rádio Altitude). Infelizmente, a rádio portuguesa generalista actual está submetida à ditadura da playlist, é quase toda ela formatada e nivelada por baixo, sem inovação nem orientada para um serviço público de qualidade e diversidade.
Comer: Como um amigo costuma dizer, "não sou de grande alimento". O meu gosto não é gourmet, é simples e sem grandes devaneios gastronómicos. Comer bem é mesmo em casa, com a minha mulher a cozinhar aprimorados pratos tradicionais: da feijoada ao arroz de pato ou de polvo, do rancho ao bacalhau abafado com broa de milho. A cozinha de autor, ou "nouvelle cuisine", não me fascina. Mas fico-me pelo meio-termo: gosto de, quando em quando, ir com amigos a um restaurante mais requintado.
Beber: Vou desiludir os meus amigos especialistas em vinho, mas a minha bebida preferida é essa "água suja do imperialismo americano" que "primeiro se estranha e depois se entranha" (agora já não, mas enfim…): Coca-Cola. Simplesmente. Mas quando se proporciona também gosto de beber à refeição vinho tinto e, especialmente, branco com um ligeiro travo adocicado. Mas nem de perto, nem de longe, sou especialista em vinho de colheita-não-sei-de-quando ou da reserva não-sei-de-onde. Quando era mais novo gostava de uma bebida que quase ninguém bebe hoje: Pisang Ambon. Em espaços nocturnos e em convívio de amigos, gosto de beber cerveja, licor beirão ou vodka com sumo de laranja. Ah, e nada bate uma boa ginjinha ou vinho do porto acompanhado com tremoços ou amendoins (de preferência salgados)!
Visitar: Fico sempre com um certo sentimento nostálgico quando visito - cada vez mais raramente - a minha aldeia natal: Fóios (Sabugal). Era nessa aldeia que passava (quando era miúdo) as férias do Verão com os meus avós. E fiquei também assaz comovido quando, há uns anos, visitei a escola primária onde estudei bem no centro de Paris (fui emigrante em França até aos 8 anos). Já não ia lá há 33 anos. A última visita ao estrangeiro foi a Madrid, cidade fantástica de vitalidade e cultura. Cá dentro, gosto de regressar a Sesimbra e à Serra da Arrábida (onde tenho amigos), ao alto frio da Serra da Estrela ou ao quente das praias alentejanas e algarvias.
1 comentários:
Nunca vi nada de Béla Tarr, desconhecia até ler aqui. Despertou-me a curiosidade. Obrigada!
Há sempre coisas interessantes nas partilhas, é que mesmo não conhecendo a pessoa há cumplicidades no gosto. Por isso, parabéns por esta rubrica.
Boa noite!
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