Vivo em Lisboa, mas nasci na Guarda, que será sempre a minha cidade. Toquei piano e cravo, mas pouco a pouco a investigação em Musicologia Histórica foi ganhando terreno e hoje domina a minha actividade. Também faço crítica no jornal Público e dei aulas durante vários anos. Desde pequena que adoro ler, sempre me senti fascinada pelas artes em geral e estou sempre pronta para viajar.
Livros: São tantos que a escolha deixará sempre muitos de fora. Por isso começo por um livro que tem dentro muitos livros e cujo tema é a própria leitura: “Se numa noite de Inverno um viajante”, de Italo Calvino. Outros livros, bem diversos entre si, com um lugar de topo nas minhas preferências: “Cândido”, de Voltaire; “Doutor Fausto” e “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann; “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis; “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde; “Ficções”, de Jorge Luís Borges; “O Náufrago”, de Thomas Bernhard; “A espuma dos dias”, de Boris Vian; “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco; “Memorial do Convento”, de Saramago (mas também a “Viagem do Elefante” e “Todos os Nomes”, entre outros); “O vendedor de passados”, de José Eduardo Agualusa...
Música: Se a escolha dos livros é difícil, a da música ainda mais. Sou receptiva a outras músicas (sobretudo jazz e músicas do mundo), mas acabo quase sempre mergulhada na música “erudita” (não gosto do termo, mas à falta de melhor). Tentei fazer uma lista de compositores de que gosto desde a Idade Média ao séc. XXI e verifiquei que era quase um resumo da história da música! Assim, vou deixar de fora os nomes óbvios (dos séculos XVIII, XIX e 1ª metade do séc. XX) e convidar-vos a descobrir compositores da época anterior: Léonin e Pérotin (quem gosta do minimalismo vai apreciar), Machaut, Cicognia (música de vanguarda dos finais do séc. XIV!), Dufay, Josquin Desprez, Gesualdo, Lassus, Monteverdi, Cavalieri, Stradella, Schütz, Charpentier, Lourenço Rebelo, Dias de Melgaz... E também as minhas preferências relativas aos tempos recentes: Messiaen, Ligeti, Kurtág, Berio, Scelsi, Sciarrino, Grisey, Sofia Gubaidulina.
Cinema: Alguns realizadores que aprecio: Hitchcock, Tati, Visconti, Fellini, Kubrik, Almodóvar... Há também filmes que me marcaram pela relação com a música, por exemplo “Crónica de Anna Magdalena Bach”, de Jean-Marie Straub e D. Huillet (bem como os filmes com as óperas de Schoenberg “Moisés e Aarão” e “Von heute auf morgen”) e “Tous les Matins du Monde”, de Alain Corneau. Das últimas coisas que vi destaco “Uma Separação”, de Asghar Farhadi. Uma última sugestão, descoberta há uns anos no Doc Lisboa: “Salvador”, de João Moreira Salles, sobre a figura absolutamente extraordinária do mordomo da família... Está disponível em DVD.
Exposição: A última foi na Gulbenkian “A perspectiva das coisas. A natureza-morta na Europa (1840-1955)”. Excelente, tal como a anterior (em 2010 salvo o erro) sobre a Natureza Morta nos sécs. XVII e XVIII, que a complementa. As exposições que preservo na memória são geralmente as que versam um determinado artista ou época que me apaixona, por exemplo “Caravaggio e caravaggeschi a Firenze”, que vi em 2010 em Florença.
Teatro: No último Festival “Próximo Futuro” da Gulbenkian assisti ao extraordinário “Woyzeck on the Highveld”, na versão que William Kentridge fez para a Handspring Puppet Company e que transforma a famosa personagem de Buchner num trabalhador da África do Sul nos anos 50... “Eu sou o vento”, de Jon Fosse, na encenação de Patrice Chéreau, no último Festival de Almada foi também um ponto alto dos meu percurso teatral do último ano. Recuando mais, recordo o “Don Carlos” de Schiller encenado por Luís Miguel Cintra na Cornucópia e “Viaje del Parnaso”, de Cervantes, pela companhia de Ana Zamora que também já esteve no TMG creio eu. A partir daí comecei a seguir o trabalho desta encenadora espanhola (vi também o “Don Duardos”, de Gil Vicente, “Mistério del Cristo de los Gascones”, “Dança da Morte”) que recupera as importantes componentes da música antiga e da dança no teatro clássico numa perspectiva “historicamente informada”.
Dança: Do panorama das últimas décadas o meu coreógrafo preferido é William Forsythe (as apresentações do extinto ballet de Frankfurt no CCB foram inesquecíveis assim como a recriação de “Impressing the Czar” pelo Real Ballet da Flandres). Gosto de “verdadeira dança”, com todo o virtuosismo e sofisticação que implica, e menos das experiências da dança-teatro, onde o movimento e a preparação técnica são menos exigentes. Também gosto de coreógrafos como Matts Ek, Preljocaj, Nacho Duato e da dupla Montalvo-Hervieu, com o seu delirante diálogo entre a história e a contemporaneidade e entre diferentes culturas. Há pouco tempo vi as coreografias de Anne Teresa de Keersmaeker “Fase” e “Bartók/Mikrokosmos” no CCB, que são também uma notável aula de análise musical. Até ao fim do ano é possível continuar a acompanhar o trabalho de Keersmaeker em Portugal, já que é artista associada da temporada do CCB.
Rádio: Ouço pouca rádio, apenas um pouco pela manhã (serve-me de despertador) a Antena I, a Antena II ou a TSF. Decerto valeria a pena ouvir mais, mas em questões de música acabo por colocar CDs. Por vezes procuro coisas específicas em emissoras estrangeiras na internet (por exemplo na BBC 3). Ainda assim sugiro um programa da Antena II: “Musica Aeterna” de João Chambers, o sucessor do mítico “Em Órbita” de Jorge Gil.
Comer: Apesar de gostar de experimentar culinária de outras paragens, a boa comida portuguesa acaba por vencer a corrida. Sou gulosa e portanto apreciadora de bolos e sobremesas, mas sem açúcar em excesso. Escolho duas coisas bem simples: uma sobremesa beirã que é um verdadeiro manjar (requeijão com doce de abóbora) e outra combinação genial: passas de uvas cobertas com chocolate negro, uma oferta que me trouxeram outro dia da Adega de Campo Maior.
Visitar: Adoro viajar, mas por enquanto tenho visitado sobretudo países europeus, com excepção do Japão (onde estive poucos dias em trabalho em Tóquio) e da Turquia que está metade na Europa e metade na Ásia e como tal tem uma oscilação constante de identidade entre o Ocidente e o Oriente (não é apenas um cliché, essa dualidade sente-se de maneira muito forte quando estamos lá). Como é uma experiência recente deixo a Turquia como sugestão. Além de Istambul, é obrigatório visitar a locais incríveis como a Capadócia, Pamukkale e Efeso. De resto, regresso sempre a Itália e reconheço que Portugal tem ainda muito para descobrir, incluindo lugares paradisíacos como os Açores.
Domingo, Fevereiro 26, 2012
Partilhas. Cristina Fernandes
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
0 comentários:
Enviar um comentário